Dia de retorno

Dia de retorno, sempre assim, temos que retornar ao que nos faz bem. Com isso, pouco a pouco vamos agregando valor ao ato de viver e nos chamando a atenção, para os pontos que precisamos desenvolver; e nos chamando para ação, sendo conciente de que o mundo precisa de você.

Dessa vez achei que o psquiatra ficou mais feliz com a minha tentativa de falar alemão do que com meu estado de humor. Parece brincadeira, mas estou falando sério, para os nativos é muito importante quando alguém se esforça para falar na sua língua natal.

Frankfurt é uma cidade veramente internacional onde se vê e escuta gente das diversas nacionalidades. Com o inglês é muito fácil “se virar” aqui. Mas, quando se arrisca no alemão a receptividade é outra. Ouvi falar que na região da Bavária não é bem assim, eles são mais tradicionalistas, bem como, nas cidades pequenas sem turismo.

Enfim, a consulta saiu um mix de alemão com inglês. Meu inglês é razoável, bom para leitura mas nem tanto para fala. Como atualmente estudo o alemão eram palavras alemãs que vinham com mais facilidade na cabeça. O mais intrigante é que para traduzir uma frase mentalmente eu uso do alemão para o inglês, e não para o português, como era de se esperar. Vai entender os caminhos que nos conduzem…

Eis que surge a pergunta que não quer calar:

Posso começar a reduzir a dose do antidepressivo doutor?

Você já está na dose mínima agora. Vamos esperar passar o inverno, lembra que decaiu no último? Sem falar que está em fase de mudança de cidade e será uma residente local aqui. Não será mais uma expatriada (família cidadã de outro país ‘emprestada’ para determinado trabalho). Sentirá na pele a vida real de um morador daqui, benvinda.

Sei que ali ele falava das altas taxas de impostos, da burocracia, do faça você mesmo, da busca pela inatingível perfeição, da falta de privacidade social, etc. Ainda assim, resolvemos aproveitar essa oportunidade de ficar em terras Germânicas. Pela educação dos filhos, pela segurança… Ainda assim, fico esperando para o dia de retorno.

Sai do consultório com a certeza de que a vida é aceitar e enfrentar os desafios. Que seja com saúde física e mental.


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Que bomba?

Hoje foi dia de retorno no psquiatria, isso mesmo médico de cabeça, de neurônios, de saúde mental.

Dessa vez foi um pouco diferente do que das outras, a sala de espera estava lotada de alemães e eles(as) tentavam puxar papo comigo.

Não hesitei e nem fiquei com medo da situação, mas também não consegui conversar, por falta de vocabulário e pela velocidade da fala dos nativos.

O bom foi que ao menos entendi o contexto que foi desde cirurgia da próstata até ao direito dos pacientes no transporte público.

Frau Leao, lá fui eu. Definitivamente eles não conseguem pronunciar o nosso “ã”.

A primeira pergunta que ele me fez foi:

– “A senhora viu o que aconteceu com o banco?”

– Vi sim.

– E isso não te assustou?

– Claro que sim, mas isso aconteceu também no banco ali da minha cidade no mês passado. E no Brasil acontece sempre.

Ele se referia à um dos bancos mais conhecidos daqui, que fica ao lado do seu consultório. Banco que estava interditado, com os vidros completamente estourados por bombas, arrombamento e sei lá mais o que aprontaram por lá.

Dessa vez fui eu quem vi o medo nos olhos do doutor…

Perguntei:

– Isso aconteceu com frequência na Alemanha?

– Claro que não, isso tem sido de alguns anos para cá.

Para o bom entender o pingo é a letra… Quis mudar de assunto afinal também sou estrangeira. Confesso que o que mais temo aqui é o nacionalismo que está voltando com força.

– Então, eu viajei de férias e acabou um dos antidepressivos há cinco dias.

Falei isso com uma vergonha absoluta porque essa é a segunda vez que isso acontece.

– Mas como está se sentindo bem?
– Sim.
– Então continue sem aquele (base serotonina), talvez ele foi necessário só no inverno. Vamos tentar. E do mais?

– Tudo bem, com altos e baixos, mas isso é a vida. A terapia tem me ajudado muito à me colocar no lugar. Tenho energia para fazer as coisas e isso é ótimo.

Aí eu já esperava as duas perguntas rotineiras:

  • Como vai a vida com sua família?
    – Quais seus planos para o futuro?

Após ele anotar as respostas no computador e me entregar a receita do outro antidepressivo (base dopamina), veio tudo o que eu queria ouvir, volte daqui 3 meses. Falo isso porque cada vez mais se estende o prazo das consultas, isso significa que estou no caminho do desmame (tirar os remédios), acredito, pois, quando não estou bem as consultas são quinzenais.

– Okay doutor, até mais.
– Se cuide.
– Se cuide também (foi a primeira vez que falei isso para ele).

É isso minha gente, a vida é interpretar os sinais das bombas que chegam para nós.


Flores cantam Poesias 🏵fotografias e poemas

e-book por Cristileine Leão


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Estrangeiro.

Rememorando:

Atravessando Oceano / Vida na Alemanha.

Olá pessoal, nesse post acima ⬆️ contei um pouco da minha experiência de ser estrangeira. Certamente a Alemanha é um excelente país e me acolheu muito bem, conforme suas características culturais, ainda assim, tenho a sensação de não pertencimento. Sinto falta da família e amigos, do céu azul, da comida… Ainda assim, sou grata por essa oportunidade acima de tudo pelo aprendizado e tolerância que temos que desenvolver. Saiba mais lá no post, inclusive há uma dica de livro que me ajudou demais na adaptação. Afinal por dentro temos quase as mesmas necessidades e vontades: acolhimento, interação, medo, receios…

Eu desejo à vocês um excelente fim de semana, aproveitem esse azul do céu.

Abraços 🙋🏽‍♀️

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Vida na Alemanha.

​Quero compartilhar com vocês como é viver em outro país. Uma experiência é você ser turista, visitar os lugares, registrar fotos, experimentar comidas típicas e voltar para casa. Outra experiência é dormir e acordar, não ver seus familiares e amigos, não entender nada do que os outros falam na rua, ter que trocar os sabores de sua alimentação, e o relógio biológico para acostumar com o clima e horários diferentes. 

Mudei do Brasil para a Alemanha em 2015. Entendo os porquês de dizerem que aqui é um país de primeiro mundo. Grande parte dos cidadãos sabem e reconhecem seus direitos e deveres. São diretos, precisos e policiam um ao outro. Fico impressionada como um país, que foi fortemente destruído pela guerra mundial, ter sido reconstruído dessa forma funcional em pouco mais de 70 anos. 

O transporte público me enche os olhos, aqueles trens, bondes, ônibus com conexão para todo lado. Dá pra sentir a mobilidade e pouca necessidade de ter um carro poluindo o meio ambiente. 

O usuário tem que comprar os bilhetes nos caixas automáticos, ou no app, e não há controle para entrar ou sair dos trens. Mas, se quiser dar uma de espertinho e andar sem o bilhete e o guarda pegar, a multa é alta. 

Sim, já tivemos que pagar essa penalidade quando estavamos aqui fazendo a visita de reconhecimento de área: procurando escola e casa. Compramos o passe para o dia todo, estávamos tranquilos, quando a fiscalização chegou e nos disse: esse bilhete não é válido para essa região. Fomos descobrir duramente que esse monte de construções encostadas umas nas outras não são bairros, sim outras cidades e regiões. Como ele viu no passaporte que tinhamos acabados de chegar, resolveu cobrar a multa só do meu marido e não de mim. A qual foi paga por cartão de crédito ali mesmo. Pagamos pela própria ignorância. 

Na educação, aqui não existe vestibular, as crianças são avaliadas por suas notas desde a quarta seríe para conseguirem a vaga na graduação, o chamado Abitur. Os familiares e professores escolhem quantos anos estudarão, ou melhor, se a criança terá formação geral básica, profissionalizante, ou, universitária. Mas, não sou especialista para falar desse assunto, o qual é muito controverso por aqui, minhas crianças não seguem o currículo alemão. 

Eu estudo inglês e alemão numa escola que é parcialmente financiada pelo governo que se chama Volkshochschule, lá existe muitos cursos de diversas áreas. Algumas classes são bem lotadas por causa do preço mais baixo. Eu só tenho que render elogios à eles nesses anos, acho que o curso depende muito do professor, como em qualquer escola do mundo.

Na saúde, é necessário ter o médico de família (clínico geral no Brasil). Quando se vai no hospital sem indicação dele, você escuta muita reclamação, às vezes nem é atendido, pois, dizem que hospital é só para urgências e emergências. 

Por não falar a língua, foi bem díficil achar esse médico de família por aqui. Na verdade, quem me indicou um foi o psquiatra quando comecei o tratamento para a depressão. Hoje me sentindo melhor, já tenho confiança para me explicar em inglês. 

Álias, como aqui é uma cidade altamente internacional, a maioria das pessoas falam o inglês também em qualquer canto. E quando você vai tentar usar as primeiras palavras aprendidas em alemão, eles já trocam para o inglês. 

Sim, já fiquei mais de uma hora esperando para ser atendida aqui. A diferença é que você sai so consultório com a maioria dos exames feitos lá dentro mesmo, exemplo: sangue, urina, eletrocardiograma, etc. Só se for preciso que recebe encaminhamento para o especialista. Acho que isso é para desafogar os hospitais. 

Todos os pacientes com convênio particular ou público são atendidos no mesmo lugar nos hospitais. Mas é claro, ouvi falar que alguns médicos priorizam os privados. Outro ponto interessante, é que aqui todos tem que ter convênio, quem não pode pagar o governo oferece um, acho que isso é uma forma de controlar quantativamente a população. 

Logo quando se muda para cá, é mandatório se inscrever no escritório do governo do seu município. Díficil andar clandestino por aqui. Eles têm muitas formas de controle. Até a receita médica sai com seu nome e endereço. As contas são enviadas para sua casa, na caixa de correio que também tem que ter impresso seu nome. Ufa.

Segurança, esse é um fator atraente daqui, se percebe que as pessoas andam mais livres e despreocupadas. Muitas casas nem tem portões. Eu como boa brasileira ando vigiando sempre. Minha professora de alemão disse que a tranquilidade tem mudado muito de umas décadas para cá. Que antes as lojas nem precisavam de segurança na porta. E que nas cidades maiores como Frankfurt, Berlim, Munique é necessário ficar mais atentos sempre.  

Na moradia, raramente se acham casas térreas, grande parte são pequenos apartamentos, casas geminadas. Raras são os que têm imóvel próprio, a maioria é alugado. Isso por causa dos preços altos e da falta de espaço. Isso é tão sério aqui, que eles alugam pedaços de terra na beira da rodovia para fazerem hortas, ou, passarem os fins de semana no ar livre. Os chamados Schrebergärten. Quando mudei para cá achei que aqueles espaços eram favelas, depois fui descobrir que não fui a única pensar assim. Nunca vi favela aqui, existem sim alguns guetos.

Tive dificuldade para alugar imóvel, além da falta de jardim, as lavanderias eram comunitárias (para todos do prédio), ou no banheiro, ou na cozinha. Muito estranho. 

A falta do churrasco com carne de vaca como é feito no Brasil, também tem haver com a falta de espaço para cultivar os animais. Aqui o churrasco é de salsicha, carne de porco, galinha, legumes; a carne de vaca tem outros cortes e é muito cara. 

Bom, o texto já está longo, e só estão algumas das minhas impressões. Se quiserem saber mais, só me digam o assunto que procuro esclarecer. 

Agora quero falar sobre uma indicação de livro que tem tudo a ver com esse assunto. Algum tempo atrás, minha amada irmã me escreveu para eu assistir uma entrevista na Ana Maria Braga. 

A príncipio pensei que era mais uma daquelas trivialidades dos programas matinais e não dei atenção, mesmo porque estava ainda muito fraca emocionalmente para ter qualquer tipo de interesse, tinha acabado de começar o tratamento para depressão. 

Dias após, me despertou a curiosidade e fui ver do que se tratava. Me surpreendi com o relato de uma jornalista que se mudou para a Europa, ela tinha as mesmas expectativas, realizações e amarguras as quais sinto aqui: 

Expatriada, estrangeira, esquisita, estranha, excluída, estragando, esquece, risos.

Tive um interesse imenso em conhecer o livro dela, entrei na internet, comprei a versão online e em poucos dias devorei aquelas conhecidas palavras e sensações. Foi tão bom, parecia que enfim encontrei espelho para minhas vivências. 

Geralmente quando conversamos com pessoas que moram em outro país, elas tendem a reforçar os pontos positivos, e quando falam os negativos nós tendemos a não escutar, ou achar que com a gente vai ser diferente. Tal como educar filho, sair da casa dos pais, reformar um imóvel, tentar mudar o comportamento alheio.

A gente parece que tem que passar por tais experiências para tirar as próprias conclusões. Entretanto, muitos desgates poderiam ser evitados se estivessemos de ouvidos abertos, se procurassemos nos informar mais do terreno a ser pisado, e se tivessemos planos alternativos para quando as coisas começarem a não sair como planejamos. 

Tudo isso e muito mais a jornalista Silvia Lourenço conta, no livro Atravessando o Oceano, de uma forma bem humorada, realista e poética. Ela descreve sobre medo, gratidão, trocas, diferenças culturais, dicas para mudar de país, estatícas de imigrantes, a influência do clima, as casas na Inglaterra, a língua como instrumento de inserção. 

O que mais me chamou a atenção no livro foi a interrelação entre o fato de ser estrangeira e as influências no humor, ou melhor, o sonho que pode virar depressão. A autora mesmo flertou com essa doença, mas percebeu antes e iniciou tratamento. Outros casos descritos em seu livro, não tem os finais felizes para sempre…

Gostei muito, leitura fluida, com relatos de casos reais, de gente como a gente que fica dividido entre o sonho e a realidade. Gente que vem a procura de emprego, estudo, amor, segurança, prestígio, enfim, de gente.

Se você pensa em mudar de país, ou mesmo se já mudou e sempre acha que tem algo para aprender, recomendo a leitura dessa obra para que sua travessia seja mais suave. Willkommen!

• Autora: Silvia Lourenço

• Data de publicação: Fevereiro de 2017

• Número de páginas: 258

• ISBN: 978-989-774-067-1

• Editora: Chiado

• Idioma: Pt/Br