Cuidados.

● Escuta você assistiu aquela palestra que te enviei?

■ Qual? Aquela da mulher que cuida dos outros com o pé na cova?

● Essa mesma, quanta doçura eh baby! Aquela dos cuidados paliativos*.

■ (Risos) Vi sim.

● Então aquilo não sai da minha cabeça.

■ Não entendi, o que pegando?

● Aquela parte que passamos a vida vivendo o sonho dos outros, seja dos pais, ou dos filhos, e quando vamos perceber já perdemos a identidade.

■ Desencana coração. Porque você não vai assistir Ana Maria Braga?

● (Silêncio). Mas é verdade, e quando ficamos velhinhos ficamos esperando reconhecimento, ou mesmo, uma visita se quer, será a vez deles estarem cuidando de alguém, estarem sem tempo, e tudo se repete. E não é só isso, aí quando ficamos sozinhos nem nos reconhecemos, nem sabemos o que fazer com a gente mesmo.

Nonde você quer chegar com isso?

● Pelo menos preciso começar a pagar um plano de aposentadoria. Se não é capaz deu num ter cuidador nem pagando.

■ (Gargalhada) mas você nunca contribuiu com o Leão?

● Que nada menina, sabe que eu só vivo o presente, vai saber qual o presente que receberei daqui uns 30 anos, melhor prevenir ( mais risos sem graça).

■ Não tem nem poupança?

● Nadinha. A única poupança que fiz foi para você, mas já gastei todo o dinheiro. Lembra?

■ Eu não.

● Como assim? Até te avisei que precisava dele para comprar uma geladeira porque ia morar sozinha.

■ Juro que não lembro. Mas se foi desencana. Aquela geladeira sua, passou pra mãe, depois veio pra mim, e agora vendi porque comprei uma nova. Então ela rendeu muitos frutos.

● Não acredito que você nem se lembra… E eu aqui todos esses anos carregando esse peso de consciência por ter gastado o dinheiro que queria te dar para os estudos.

■● (Risos e mais risos conjunto) Ah, virou pizza.

Tudo vira… Tudo virá.

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  • Baseado em fatos reais.
  • Por mais que pareça o texto não é sobre a velhice, nem da solidão, mas sim sobre os cuidados com nós mesmos para não virarmos pizza de mão em mão.
  • Por falar nisso, como anda a lei sobre aposentadoria para donas de casa?
  • A palestrante mencionada é a Ana Maria Claudia Quintana Arantes.
  • Cuidado Paliativo* não é sobre morrer, mas sobre como viver.
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Por segundos fomos uma.

Cabelos brancos encaracolados na altura do ombro; pele pálida, fina e enrugada do tempo; olhar longínquo e cansado de quem já viu muitas estações.

Assim desenhei na mente, aquela senhora que vi na janela do terceiro andar enquanto eu passava de ônibus.

Era muito cedo, o frio estava intenso e lá estava ela, na janela arrumada de flores e velas.

Pensei na sua solidão, que podia estar descansando numa hora daquelas. Mas já estava ali toda arrumada e aprumada para ver o dia começar, com seus transeuntes pra lá e pra cá, sacos de pão, cachorros tremendo, mochilas escolares, gorros, muitos gorros, cachecóis e luvas.

Do alto do prédio, poucas luzes acessas, entre elas a do terceiro andar. Convidando me para entrar, e eu entrei, naquele rápido flash de uma passagem de ônibus.

Entrei, na própria imaginação do que eu poderei a vir ser um dia. Se é que o tempo e as estações permitirem.

Por segundos fomos uma…

A cada segundo somos um, já não penso como ontem. O ônibus segue seu destino.

Será que ela me viu? Como me mentalizou?

Imagens, somos feitos de imagens e imaginação.

Presos nas teias das nossas cabeças, livremente soltos nas veias do mundo, entregues a própria sorte, até que a morte nos separe.

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Ciclos da vida.

  • Mãe olha aqui.

  • O que foi filho?

  • Olha como eu cresci, já estou atingindo a altura dos seus olhos, você viu? 

  • Você percebe você crescer filho?

  • Claro que não né mãe, que pergunta. 

Assim acontece todos os dias, vamos formado carne, osso, personalidade, sem nos dar conta do que está na vista de todo mundo. 

De repente nos pegamos desengonçados, derrubando tudo ao redor, o corpo se esticando mais rápido que a mente. A cabeça de criança num corpo adolescente. 

Uma decepção aqui, um empurrão lá, noutra vez a mão esticada e plá-plum, caiu na vida adulta. Corre, corre nessa esteira, sentindo mais o tempo se esvaindo do que o que o vento nos cabelos, você cresceu. 

A energia vai rareando, o tempo é soberano, quer nos dar encanto outra vez, vem a velhice. Oportunidade de usar o crescimento de longos períodos para o desenvolvimento. O tempo vai tomando ar de eternidade, e o vento continua chamando para brincar. 

No entanto, sempre, todos nós, em todas etapas da vida, continuamos como aquele menino que não percebe o crescimento diário; que chama para ser visto, querendo um olhar carinhoso e dizendo: “mãe logo eu vou partir”.