Quer sim, quer não

Parece que gostamos de sofrer
por falta de antecipação

Veja bem

Todo dia

O trem tem sempre o mesmo horário de partir

Ainda assim

O que mais se vê

São pessoas correndo
para não perder a partida

O trem vai

Quer a gente corra

Quer não

Quer a gente sofra

Quer não

Pare de rodear o que quer

Vá direto ao ponto

O trem não espera

As estações passam

Até a hora de partir

Quem verão

Os sonhos

Nas janelas embasadas

Do inverno?

Amora branca.

Amora branca, amora branca

Assim me dizeram que era seu nome

Procurei te colher por todos os cantos

Amoras vermelhas encontrava

Enfim te achei na calçada da costureira

Debaixo de sua sombra

Eu dava ponto sem nó

Colhendo frutos

Assobiando o hino

“Para frente, para frente

Sou Taiúva a marchar

Conclamo a minha gente

A cantar, a cantar”

Era tão pequenina

Seu sabor marcou

A roupa das minhas entranhas

Amora branca, amora branca

Tão rara

Assim como o sossego

Que habita em teu solo

Assim como os paralelepípedos

Que lhe foram tirados

O rio Turvo que foi evaporado

A linha de trem que ficou escondida

Com a seiva de prosperidade

Amora branca, amora branca

Minha cara

Que tua paz não seja devastada

Como foi sua estação.

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Figura da linguagem = Apóstrofe

Evocação de algo, ou alguém, para causar ênfase, e exaltação da emotividade. Muito usada na poesia épica e lírica.

Aposto que você vai identificar essa apóstrofe: “Pai nosso que estais no céu”.

Contextualizando o poema:

Taiúva é a minha cidade natal, quer dizer, não nasci lá pela falta de hospital para partos, mas cresci e vivi até os meus 17 anos nessa terra.

O significado do nome Taiúva é amora branca, diziam que haviam muitas dessas árvores nativas na região. E eu procurava, como procurava…

O rio Turvo é um rio que nasce em Monte Alto (cidade vizinha), pertence a bacia hidrográfica do Rio Grande. Na infância banhei nele, hoje as criançada não tem essa mesma sorte, o rio praticamente sumiu em nosso trecho…

A estação ferroviária, chamada Cia Paulista, foi a responsável pelo surgimento de Taiúva. Nessa época a cidade era bem próspera com armazéns, cinema e até moeda própria. Hoje no local funciona um centro de esporte público.

A cidade estacionou o desenvolvimento após a desativação da estação de trem. O último grande empreendimento construído em Taiúva foi um presídio.

Fundada em 1902, Taiúva tem pouco mais de 5 mil habitantes. É uma cidade do interior de São Paulo onde há tranquilidade e companheirismo. Benefícios que estão sendo aos poucos danificados pela escassez de emprego e estudo que levam os jovens tomarem outros caminhos.

Eu lembro da estação e dos trilhos, na minha época no lugar era uma biblioteca. Talvez seja por isso que eu tenha essa fascinação por trem. O Brasil perdeu muito em desativar a malha ferroviária. Agora estamos somente nas mãos das rodovias e seus pedágios…

Com tantos rios, mar e terra que temos por aí, poderíamos ter meios de transportes mais variados (mas, porém, entretanto) 🎶nos deram espelhos e vimos um mundo doente🎶.

Hora de buscar nossa própria identidade, ainda que sejam raras as amoras brancas.

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Outras leituras.

Estava num daqueles dias propícios para paz, sem Wi-Fi, sem os afazeres domésticos, sem aulas presenciais ou virtuais, sem o leva e trás das crianças para a escola, clubes, casa amigos e tal. Estava numa dessas viagens longas de trem, onde se esgota toda possibilidade de joguinhos, apreciação da paisagem e bate-papo. Só me restou uma alternativa, vou ler, mas estava sem livros, vou ler pessoas e comecei.

O primeiro capítulo a ser folheado foi o sujeito sentado ao meu lado, era um daqueles homens com o rosto cansado e a postura de alfa. Ele ocupava um espaço e meio das poltronas, não por causa da sua altura ou largura, mas porque é um daqueles homens que tem a necessidade de abrir as pernas ao máximo sem se importar com quem está ao lado. Lembrei das minhas aulas de inglês quando uma garota espanhola disse que no país dela há uma lei para coibir esse tipo de ação. Inclusive, nos transportes públicos há placas indicando para sentar de perna fechada.

Pulei essa página, me encolhendo um pouco mais no assento. Na minha frente, a personagem era uma freira que pela fisionomia parecia ser tailandesa, estatura mediana, magra, séria, uns 40 anos. Como de costume usava um crucifixo grande pendurado na corrente e um véu preto e branco cobrindo os cabelos. Parece que não, porém, vi nas entrelinhas um certo quê de vaidade feminina. Seus trajes eram roupas normais e discretas, não aquele hábito tradicional, o detalhe ficava na camisa meia manga fofa, com tecido de linho bem passado, listrada de branco e preto combinando com o véu.

Desviei o olhar curioso do que se passava naquele pensamento, quando de repente me vejo sendo observada por outro livro, às vezes escolhemos a leitura, às vezes somos escolhidas por ela. Fechei o livro de pessoas, olhei pela janela, meu dedo marcava onde eu tinha parado, parte da gente sempre marca. Voltei e fitei naquele livro que ainda me olhava, tinha um ar de dor, fisionomia carrancuda. Tentei entender aquelas palavras, agora foi ela quem baixou os olhos.

A prateleira estava cheia, mas na chegada de uma nova estação se esvaziou, inclusive saiu a página de pernas abertas. Que alívio.

Lembrei da leitura do ano passado, quando tinha reservado uma cabine para viajar mais tranquila com as crianças. Quando cheguei lá havia alguém a ocupando, já estava sem sapatos e tinha tomado toda a mesa central com suas papeladas do serviço, como também o bagageiro de malas. Sem saber falar muito a língua local mostrei os bilhetes numerados. Quando olhei para trás vi as crianças assustadas, não entendi o porquê, já que aquele senhor arrumou seus pertences e foi para outro lugar. “Mãe você nem imagina como ele te xingou”. Ri muito, tem hora que não é bom entender.

Voltei à realidade com mais um livro me cutucando, dessa vez era um rapaz bem fofinho que ocupou a poltrona do meu lado, enfim, esse sentava com as pernas fechadas. Resolvi olhar os que estavam mais adiantes, os jovens, ah os jovens! Quantas idealizações e ilusões. Mudei de livro porque não entendia a língua que eles falavam.

Quando fui pega de surpresa por um audiolivro, um garoto de uns doze anos tocando triângulo, acompanhado seus pais sanfoneiros, a melodia seria linda se eu não soubesse o que estava por trás da cena. Sua baixa estatura, será que por falta de nutrientes advindos da comida, de passeios, de leituras? Os livros sempre nos fazem imaginar. O sorriso não lhe saia da boca, sobre a boca as primeiras penugens de bigode, para baixo, sempre para baixo a cabeça enquanto caiam as moedas na sacola de juta. Uma sociedade que permite que uma criança trabalhe lhe tira a visão de horizonte.

Demorei muito para levantar a minha, mas no lugar do sorriso veio o ranger de dentes, assim se dá o crescimento no mercado de trabalho. Como nos tempos escravagista, mostrar os dentes para ver sua valia. Até quando?

O respeito para quem é pobre, negro, índio, mulher, deficiente, diferente, se resume em dissimulação.

Isso não é um livro de lamentações, também tenho preconceitos emaranhados. Preconceitos são ligados ao nosso contrário, mas há suas exceções. Passei a compreender mais os oprimidos e os opressores quando comecei gostar dos livros de história. Brancos e ricos não são a face do pecado. O pecado foi determinado para o separativismo. Descobri que os primeiros escravos eram louros de olhos azuis na Europa.

Cansei dos livros de história, eles são reducionista. A voz do vendedor. Sem falar que nem tudo consegue ser transmitido por palavras. E há muitos mais fatos do que os livros podem nos contar. Agora gosto mesmo de ler os livros de filosofia, mas nem sempre consigo alcancá-los…

No fim de cada livro descobrimos que nenhuma constelação é feita só, o breu e estrelas são os mesmos, desde quando abrimos até quando fechamos os olhos.

Mercado de escravos na antiga Roma. Gérôme, Jean-León. 1884. Museu Hermitage, Rússia. Os dentes da escrava branca estavam sendo verificados.

Queria tanto ler mais comédias, mas tenho uma caída pelos dramas. Ignorei o primeiro atchim, mas eles ficavam mais constantes. Agora o rapaz do meu lado está dividido entre limpar o nariz e gargalhar com aquela turma de jovens o qual ele faz parte. Fico temerosa, livro pode ser contagioso.

Procuro uma capa de rosto de simpatia, mas não consigo encontrar. Talvez porque a maioria está de cabeça para baixo nos seus smartphones, ou ocupada lendo livros. Incrível como hoje temos dificuldade de nos entregarmos ao nada.

Eu mesma estou lendo pessoas porque o celular descarregou. Agora me sinto empilhada. Sei que cada pessoa é um livro que me fará sentido quando para ela/e eu estiver preparada.

Chegou tão rápido, não vi o tempo passar. Calmamente, eu e a freira esperamos os desesperados descer. Quando ela foi tirar sua mala do alto do bagageiro, a deixou cair em mim, lembrei que eu também já fiz isso numa viagem passada, doeu é claro, mas não mais do que essa gripe em pleno verão que insiste em não partir.

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Acontecimentos.

Às vezes acontece
do trem partir cinco minutos mais cedo
Você vê e
tem que ficar na estação até a vinda do próximo/

Às vezes acontece
do trem partir vinte minutos mais tarde
E você ter que ficar dentro dele sentado
Na espera de prosseguir/

Às vezes acontece
Do trem não vir
E aí?

Os acontece da vida
A própria vida
É como um trem.

O esperado do inesperado
O inesperado do esperado
Acontece.

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