Viver com depressão – Depoimentos 

Nessa entrevista de um programa televisivo de Portugal, “Conversa Sem Tabus” o tema é depressão.

Na primeira parte, a qual achei mais interessante, há depoimentos de quatro pessoas entrevistadas por uma repórter que lida com essa doença há vinte anos. Eles responderam essas perguntas:

  • Como é que você percebeu que algo não estava bem?
  • Quais sintomas depressivos sentia?
  • Como a família e os amigos lidaram com a situação?
  • Como é que se explica o que é passar por uma depressão para quem não sabe?
  • Acha que a depressão ainda é desvalorizada pelos outros?
  • De que forma a sua condição afetou sua vida profissional e pessoal?
  • O que gostaria de dizer às pessoas que não compreendem a depressão?

As principais mensagens que tirei:

  • Não é que as pessoas não entendem a depressão, é que elas são mal informadas.
  • Saber observar e diferenciar o próprio caráter/personalidade da doença depressão.
  • É natural que todos da nossa volta sofram com isso.
  • A medicação é importante nos picos depressivos, a psicoterapia fundamental no cotidiano para evitar tais picos.
  • É necessário a psicoeducação, as pessoas têm que se informar, conscientizar, aceitar o diagnóstico e principalmente se tratar para não se prejudicar gravemente.

Conclusão: fiquei pensativa com as perdas e danos dos depoentes (trabalho, casamento, vida social). Quanto ao estigma de “doença de rico”, do “vai procurar o que fazer”, o neuropsicólogo entrevistado explica que a depressão afeta mais as pessoas pobres por causa do pouco acesso aos bens (social, saúde). De fato, uns podem se cuidar melhor que os outros. Mas bom lembrar, todos vivemos nesse mundo e de uma maneira ou outra vamos nos relacionar. A depressão não está nem aí com o fato de ter dinheiro ou não, com idade, cor da pele, religião. Está aí crescendo, deixando marcas, nesse mundo aonde tudo pede um pouco mais de atenção.

Viagem do viajar.

Foto da flor clicada na mureta do Castelo de Sintra, mas poderia ser em qualquer passeio.

A vida está me dando coisas leves, ou melhor, eu estou sabendo recebê-las. Olhando para os fatos por outra perspectiva, diminuindo o pessimismo e a expectativa. Assumindo os momentos felizes com mérito e sem culpa. Afinal as coisas são o que são, pau é pau, pedra é pedra, mar é mar. O que pode mudar é nossa força para usar tudo o que recebemos com gratidão e desenvolver o poder da criação. Ainda assim, toda essa mudança começa na atitude individual e depois afeta o coletivo. 

Tais reflexões me vieram a mente depois que fiz uma viagem só com minha sogra de 73 anos. Ela tem uma certa dificuldade de locomoção por usar próteses nos joelhos e coluna. Lá fomos nós, nos aventurar por terras portuguesas da onde sairam seu avô e minha avó para o Brasil em tempos longínquos. 

No primeiro dia eu já virei o pé com o salto anabela nos paralelepípedos, ela me segurou. No segundo, troquei anabela por uma sapatilha bailarina, escorreguei, e a sogra também me segurou outra vez. Foi engraçado, vi que não estava tão firme quanto eu imaginava. Comecei a sair de chinelos.  

Tivemos que fazer os passeios em passos vagarosos, o que foi ótimo, ver cada detalhe da cidade, sentar, conversar com os nativos. Um motorista de ônibus nos contou sobre sua infelicidade conjugal e o aparecimento de uma gatinha para quem estava transferindo seu amor. Uma senhora a caminho do trabalho mudou o trajeto para nos mostrar nosso caminho perdido. Um artista de rua colocando as pedras em equilíbrio, o outro estátua viva cantando John Lennon para minha sogra. O rosto dela tomando formas cômicas em uma caricatura, e seu sorriso real mais expressivo do que o desenhado. 

Eu deitei  embaixo das rochas ao lado da praia, areia gelada, sol escaldante, barulho do mar, fiquei a olhar o céu azul pela fenda da rocha. De repente li: perigo de deslizamento. Pois, a sogra perguntou para outras pessoas que ali estavam, um morador lhe disse: minha senhora não tema, quando nasceu já assinou seu contrato de volta

Certo dia, num castelo imenso e lotado, perdi a sogra, desesperei, sai perguntando para todos que falavam português, só duas mulheres disseram ver uma senhora com bengala descendo as trilhas, só que eram muitas trilhas, muita mata. Acionei a segurança que tentava me tranquilizar dizendo que tudo era filmado lá. Aí entra uma senhora com o nariz sangrando porque caiu na rampa, os cabelos brancos estavam vermelhos. Saiu meu chão. Fiquei na agonia da espera por mais de uma hora, quando me avisaram, sua sogra está sentada na portaria de saída. Peguei o ônibus e fui encontrá -la, cheguei lá e ela com aquele sorriso costumeiro, e disse sabia que uma hora você tinha que passar por aqui. Que nervoso que deu, depois pensei, realmente há muitos caminhos que temos que passar por aqui…mas a entrada e saída continuam no mesmo lugar. 

No outro dia caminhando a beiramar escutamos: olha finalmente achou sua mãe. – Não, não é minha mãe, é minha sogra. Eram as irmãs brasileiras, imagino por volta duns 60 anos, que eu tinha abordado no começo da busca. Sabe que quando vimos ela descer de bengala, nos sentimos entusiasmadas de subir sem o ônibus. 

Vejam só, uns se espelhando nos outros, ainda que o outro não saiba.  Naquele mesmo dia recebi o telefonema do marido agradecendo por proporcionar momentos de alegria e suspiro para a mãe dele. Imagina se contasse toda a história naquela hora,  hahaha, agora posso rir. Confesso que também tenho meus agradecimentos, por ele ter ficado com as crianças nesses cinco dias inesquecíveis. Quanto soube da história familiar deles. Quanto entendi mais de nossa história. 

Enfim, quero dizer que dessa vez tive uma outra visão do turista protagonista, sim continuavam multidões com suas máquinas fotográficas e desespero por estar no mesmo lugar e ainda ser explorados por isso. 

Só que dessa vez fiquei imaginando em quantas noras e sogras poderiam estar se descobrindo naquelas paisagens, quantos amantes e amigos se conhecendo em diversas poses, quantos trabalhadores trocaram o sol árduo do arado para trabalhar como guia de turismo. Enfim, divagações de quem só está de passagem nessa terra.


Sugiro a leitura dessa outra Opinião na DW: A busca pela verdadeira viagem

Também adoraria receber sua opinião sobre o que pensa do turismo, que tipo de turismo gosta, que tipo não gosta, etc e tal.