Ressaca

Bebi demais

Não percebi

Passei dos limites

Reinou tontices

Vibrou torturas

Perdi o prumo

Cai no vão

Fiquei sem rumo

E sem visão

Vomitei

Toneladas de desafetos

Saiu com bile

Amargo o fardo

Como viver nessa confusão?

Queria

Rasgar o corpo

Tirar o cérebro

Tudo sem gosto

Estômago no vão

Coração sem laços

Sem ver graça nos fatos

Não levantei

Só recusei

Embriagada

Sem conseguir pensar em nada

Que pudesse me tirar do banheiro

Sentada no ralo

Chorei litros

Revoltada com a vida amargurada

No si só

A água invadiu meu apartamento

Minhas amigas me deram banho

Adulta, casada, formada

Tive que dormir entre os pais

O carro foi lavado de vômito

Respingou em todos

Houve risos certeiros e medonhos

A alma querendo voar

Sem pluma

Sem afeição

A suma secou

O céu também

Esmoreci

Transfigurei

Perdi a voz

E a consciência

Cai de novo

Tudo queimava

Na solidão

Tudo escuro

Na contramão

Acordei de ressaca

Aquela

Ressaca da depressão

Que mata

Mas

SOBREvivi

Foram anos de repressão

Até sacar

Beber ou não

Só por hoje não beberei

Agora sigo o A.A.A.

Autoconsciência

Autoestima

Autocontrole

Dirijo o carro da vida

Entre pistas sinuosas e

Belas vistas

Vestida e despida

Silenciosamente

Chegou

Sem ser convidada

Se instalou

Fui despida

Fui vestida

Camadas de pele

Dilacerando

Nos ossos ocos

Pensamentos sorrateiros

Nos mortos

Com o vestido preto

Não há face

Não há máscaras

No espelho

O que nos modela

É o tecido feito por sombras

Costuradas na alma

Como resistir ao que nos contém?

Passeei e quase morei em Plutão

Foi quando lembrei de Platão

No seu Mito da Caverna

Que dizia

O mundo das formas transcende

Ao nosso próprio mundo

Quão pequena

Usando um só vestido

Agradeci a dama de preto

Que me trouxe até aqui

Senti sua dor

Seu pavor

Seu clamor

A escutei

Tintim por tintim

Ela me perguntou

E agora?

Eu respondi

Estou com saudade daquele vestido de flores e pregas cheios de botões no peito

Assim ela voou

E eu deixei de ser

Minha carrasca.


Plutão na mitologia romana, o mesmo que Hades na mitologia grega, era o deus do submundo. Marido de Perséfone. Lembrando que inferno para eles não tem o mesmo significado que inferno nos dias atuais.

Plutão tinha o domínio sobre os mortais na pós morte, e também tinha o poder de restituir a vida, apesar de ter feito isso poucas vezes e a pedido de Perséfone. Quieto e temido, ele representava tudo aquilo que não queremos, ou não estamos preparados para ver, desde a morte até a transformação.

Plutão (Hades) ganhou o domínio das terras subterrâneas após uma disputa com os Titãs, seus irmãos ficaram com o domínio dos mares (Poseidon) e do céu e da Terra (Zeus).

Sugestão de Leitura:
Os Deuses e o Homem.
As Deusas e a Mulher.
Ambos escrito por Jean Shinoda Bolen.