Ancorar

“Eu tenho pele branca, nasci em um país rico, tenho o passaporte certo, pude frequentar três universidades e me formei aos 23 anos”.

“Sinto uma obrigação moral de ajudar as pessoas que não tiveram as mesmas bases que eu.”

Essa foi a justificativa de uma capitã alemã que atracou um navio com refugiados num porto italiano.

Agora, é claro, ela está respondendo legalmente por isso. Carola Rackete está sendo vista por uns como heróina e por outros como criminosa.

Mais do que a coragem, quero destacar nessa moça um valor que só anda em destaque no muito bibibi dos bites e dos bytes, mas que na prática vem se atrofiando: a empatia.

Isso mesmo, se colocar no lugar do outro, e mais do que isso, agir além de si, além dos próprios interesses e conveniências.

O que será dessa capitã eu não sei, mas a mensagem é clara. Chega uma hora que precisamos ancorar nosso navio. Doa à quem doer. Ainda que esse alguém seja nós mesmos.

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Fábula IV – Do isopor.

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Isopor

Ele era um pedaço de isopor velho levado pelo vento. Mesmo sendo leve, resistente e impermeável, ele não perdoava os erros dos outros, então voava para disfarçar o sofrimento próprio e alheio. Ele não parava nas mãos de ninguém porque as sujava com as marcas do julgamento.

O isopor voou e voou por léguas, até trombar com a porta de uma igreja e se despedaçar em pedaços mil. O padre assustado sentiu cheiro de pecado no ar, correu para a porta, que fica entre o céu e o inferno, e tentou reciclar o material perdido com toda a sua oratória, usou também incenso, vinho e até água benta.

Aos poucos o isopor foi se reconstruindo e tomou a sua forma fenomenal de isolante térmico e acústico, voltou a ser o voador, o dono da verdade.

Perspicaz e cismado como só era aquele poliestireno, logo se fez imponente e incontestável. Então, começou voar no confessionário e delatar tudo o que ouviu, e tudo o que não ouviu, enquanto estava contido por lá.

O sacerdote havia esquecido que não tinha a capacidade do isopor, pois, no isopor não se prolifera a criação de microorganismos. Já nos homens…

No topo, o isopor fez o padre lhe pedir perdão.

E assim termina uma estória, que nunca se fez, que não tem moral, que nunca ninguém contou.
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