Vestida e despida

Silenciosamente

Chegou

Sem ser convidada

Se instalou

Fui despida

Fui vestida

Camadas de pele

Dilacerando

Nos ossos ocos

Pensamentos sorrateiros

Nos mortos

Com o vestido preto

Não há face

Não há máscaras

No espelho

O que nos modela

É o tecido feito por sombras

Costuradas na alma

Como resistir ao que nos contém?

Passeei e quase morei em Plutão

Foi quando lembrei de Platão

No seu Mito da Caverna

Que dizia

O mundo das formas transcende

Ao nosso próprio mundo

Quão pequena

Usando um só vestido

Agradeci a dama de preto

Que me trouxe até aqui

Senti sua dor

Seu pavor

Seu clamor

A escutei

Tintim por tintim

Ela me perguntou

E agora?

Eu respondi

Estou com saudade daquele vestido de flores e pregas cheios de botões no peito

Assim ela voou

E eu deixei de ser

Minha carrasca.


Plutão na mitologia romana, o mesmo que Hades na mitologia grega, era o deus do submundo. Marido de Perséfone. Lembrando que inferno para eles não tem o mesmo significado que inferno nos dias atuais.

Plutão tinha o domínio sobre os mortais na pós morte, e também tinha o poder de restituir a vida, apesar de ter feito isso poucas vezes e a pedido de Perséfone. Quieto e temido, ele representava tudo aquilo que não queremos, ou não estamos preparados para ver, desde a morte até a transformação.

Plutão (Hades) ganhou o domínio das terras subterrâneas após uma disputa com os Titãs, seus irmãos ficaram com o domínio dos mares (Poseidon) e do céu e da Terra (Zeus).

Sugestão de Leitura:
Os Deuses e o Homem.
As Deusas e a Mulher.
Ambos escrito por Jean Shinoda Bolen.

Perséfone e a depressão

Proserpina, Dante Gabriel Rosetti, 1874 (foto Wikipédia)

Os percursos das deusas da mitologia grega têm muito a nos dizer sobre a depressão. Sobretudo os de Deméter (arquétipo a mãe) e Perséfone (arquétipo a filha). Hoje vou discorrer sobre Perséfone.

Essa que é a deusa das flores, dos frutos, das ervas e dos perfumes, como também a rainha do submundo, aquela que teve que aprender a andar entre os vivos e os mortos.

Perséfone pode nos dar dicas de como lidar com a depressão, pois, ela passa parte do ano nas trevas e na outra produz a Primavera. Dizem que por esse mito nasceram as quatro estações do ano.

Somente essa passagem, já nos dá para se ter uma ideia de que é bom estarmos preparados para todo o tempo: receber, usufruir, preservar e reconstruir em cada período.

Esse mito vai mais a fundo, de filha amada por Deméter (deusa da agricultura), até donzela raptada, violentada e prisioneira por Hades (deus das trevas e dos mortos); Perséfone passou por transformações e adquiriu poderes para tratar com as profundezas e a beleza, saber lidar com os contrários e contrariedades.

Antes ela só conhecia a proteção e a pureza (ingenuidade), até ser obrigada a conviver e conhecer o subterrâneo, a morte, a escuridão. O que não é dito, o que é escondido, o que é abominável.

Por isso muitas vezes Perséfone é dita como deusa vítima, a que não sabe dizer não, lutar por seus propósitos, ter clareza de objetivos, se impôr.

Mas, procurando desvendar melhor o mito veremos que não é bem assim.

Em certo momento Perséfone tem a oportunidade de voltar a viver com a sua mãe no mundo da luz, mas, decidiu comer o fruto da romã o que lhe liga nas profundezas com o marido.

Lembram do caso da maçã? Pois é, Perséfone passou a ter conhecimento do bem e do mal.

Por isso, ela vive entre o mundo do consciente e o do inconsciente. Podemos dizer que ela é a deusa da transitoriedade, quem entende que tudo passa e se renova no ciclo da vida.

Entretanto, manejar o perfil Perséfone não é fácil, nossa cultura cultua e celebra somente a vida, a luz, a prosperidade, o que se vê; e não sabe o que fazer nas situações de morte, dor, escuridão, decadência, inconsciência, intuição.

Antes de Perséfone aceitar sua nova condição de vida, ela passou por momentos de negação, profunda tristeza e desespero.
Se isolou, não queria mais comer e nem ver nada o que tinha pela frente. Deprimiu. Teve que lidar com a morte diariamente, conheceu forçosamente a sexualidade e a separação.

Esgotada suas mágoas, Perséfone percebeu que não tinha mais para onde ir, precisava compreender tudo o que aquela situação tinha para lhe dizer; já que não tinha como sair daquele lugar, que a aversão dele saísse dela.

Assim virou a “rainha e guia dos mortos” que ali chegavam, passou amar e respeitar seu marido Hades, passou a governar com ele.

Quando em terra, Perséfone não deixava de dar a luz trazendo o brilho, as cores e os aromas da Primavera.

O que me diz o mito de Perséfone:

Ufa que mito! Claro que lembrei de “A Bela e a Fera”. Leio, releio, pesquiso e sempre aparece algo a ser descoberto. Aqui procurei fazer uma compilação do que aprendi relacionando com a depressão, na busca de pistas de como entrar e sair dessa caverna. Verificar o que podemos aprender com ela. Não ficar sendo vítimas, nem vilãs, nem culpadas da situação, mas nos contextualizar nela. O perfil Perséfone tem atração pela morte, mas é na vida que ela sabe florir. Entre as trevas e a luz, há romãs (escolhas).

Fontes:

  • É fácil achar o mito na internet.
  • Para saber das origens das estações sugiro esse link aqui
  • Livro: “As Deusas e a Mulher“, de Jean Shenoda Bolen.
  • Texto: Perfil Psicológico da Mulher Perséfone, de Fatima Vieira.

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