No canto, no ponto e nos contos

Barragens e ciclones

Assustam os homens

Como lobos na floresta

Não deveriam/

Olhem bem

Mocinhas e caçadores

Estão à revelia

Dos feitos/

Recusam a seguir

O caminho do pão

Usando o controle

Da televisão/

Sabemos que

Todos viraremos

Comida de pombos/

Mas, só os sacrificados contarão

Com toda elucidação

Sobre a nossa face indecorosa

Nos anais da História

De todos os povos/

O começo feliz

Está no agir

No nosso canto

Naquele ponto e

Nos contos.

*pensando nos desastres ambientais e naqueles nem tão ambientais assim…


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fotografias e poemas


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Creative Commons Atribuição Não Comercial Compartilha Igual 4.0 Internacional

A saudade

A saudade pode ter

Cheiro de laranja bahia

Relógio de bolso do vô

A trança do cabelo da bisa

Balanço do rabo do cachorro

Amassar pão com a vó

Das gargalhadas com as amigas

Das conversas com a boneca

Das fugidias para namorar

Do sorriso do sogro

Do cobertor de infância

Das dobrinhas do filho bebê

De ver a fonte luminosa

De casa, dos casos, dos causos

A saudade não nasce

A saudade vive

Para sempre

Marcando suas digitais

Nos tocando

Nos sentindo

Nos provando

A saudade diz

Levanta humano

Sóis imortais

Que amam

Que ama

Que há

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Este poema foi inspirado numa fala da minha mãe que ecoa na minha cabeça há anos. Sempre nessa época de fim de ano, especialmente nas festividades, ela fica triste e chora. Uma vez questionei o porquê. “É a saudade minha filha, um dia vai me entender”. Entendi.

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Zero e um.

Já existiu o zero?

Como assim?

Oras se estamos em 2018 já teve o zero, sei que teve.

Dei-lhe uma daquelas respostas convencionais do antes e depois de Cristo.

Expliquei brevemente sobre as civilizações antigas, os egípcios, os persas, os gregos…

Disse que disse e disse, quase nada foi captado, ou melhor, não foi uma resposta convincente.

Depois de muito falar, fiquei eu com uma questão:

O zero é o que demarca uma nova civilização?

Antes que me viesse na mente as tais respostas prontas e repetidas por eras, as respostas criacionista ou evolucionista, fiquei brincando de era uma vez…

O sol é zero

A Terra é zero

No universo há zeros alinhados

A lua é zero que derrete e se refaz

O mar borbulha em zeros mil

O miolo da flor é zero também

Já eu e você somos só mais

Um.

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A chance.

  • Fico pensando na chance de sermos humanos.

– Por que fala isso filho?

– Veja bem, poderíamos ter nascido animal ou planta, aí nossa vida seria completamente diferente. Sendo humanos sabemos que podemos mudar e criar muita coisa.

Esse diálogo com o meu filho foi enquanto eu estava admirando um avião voar sobre nós depois que embarcamos as vovós de volta ao Brasil.

Humanos,

Quem imaginou que poderíamos chegar aonde chegamos?

Alguns dias atrás, tive a oportunidade e a honra de levar minha mãe para conhecer Paris. Uma viagem do tipo só meninas: eu, ela e minha filha. Passei o dia escutando e falando mãe, mãe, mãe.

Pegamos um ônibus em Frankfurt na Alemanha às 22h, chegamos na França às 6h30. A estação era ao lado do rio Sena, pelo qual caminhamos aproximadamente 30 minutos, até o dia clarear, rumo à igreja de Notre Dame.

Igreja Notre Dame, vista lateral.

De lá partiu um daqueles ônibus que vai parando nos principais pontos turísticos. Foi a segunda vez que usei esse serviço e gostei demais, bem adequado para quem tem pouco tempo na cidade e gosta de escutar sobre a história do local.

Fizemos esse tour em um dia, no outro fomos para a Disney e voltamos embora de trem, o retorno foi apenas em três horas.

Dessa vez o que mais apreciei foi conseguir visitar o Museu de Dalí, que fica poucos metros da igreja Sacre Couer (um dos lugares que acho lindo demais). O museu é pequeno, o acervo não é diversificado, mas o artista é incrível sempre.

Igreja Sacre Couer.

Quanto ao que minha mãe mais gostou vou transcrever num diálogo:

  • Vó você gostou mais de Paris ou da Disney?
    – Da Disney.
    – E na Disney o que você mais gostou?
    – De abraçar o Mickey.

Por essa eu não esperava, realmente não percebi a emoção dela naquele momento, pois, estava cansada de ficar 40 minutos na fila para tirar a foto com o personagem.

Após escutar as duas, refleti:

por dentro somos todos crianças atrás de sonhos.

Próximo mês o Mickey Mouse completará 90 anos, minha mãe fez 64 nesses dias que ela estava passeando na minha casa. Quanta honra de novo!

Certamente ela não assistiu o desenho do Mickey quando era criança.

Sentadas próxima à Torre Eiffel que tristemente foi cercada por uma parede de vidro, reflexo da discrepância humana, minha mãe nos contou que teve que parar de estudar depois da quarta série.

Agora você já sabe ler e escrever, tem que trabalhar“, disse o pai dela. Só depois que cresceu ela foi fazer o mobral, um curso de alfabetização de adultos, estudou magistério e pedagogia.

Vi certa tristeza nos olhos dela dos anos de lacuna educacional, têm buracos que não fecham.

Disse-lhe que é assim mesmo, que na época dela muitas crianças tinham que trabalhar para ajudar no orçamento da família. Que na minha, ela e meu pai faziam das tripas coração para nos estudarmos. Já, atualmente, eu tenho como obrigação legal manter meus filhos na escola. E toda vez que eles faltam, como nesse dia do passeio, tenho que justificar.

– Mãe somos um produto histórico.

Nesse passeio percebi que a maior aula de vida quem estava tendo era minha filha. Então, até relaxei por ela ter enforcado um dia de aula.

“Há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas”

Rubem Alves.

Eu nunca tive o sonho de conhecer o Mickey, nem de pisar no exterior, para falar a verdade era bem nacionalista, defensora da MPB e contra músicas internacionais nas rádios. Como me faz falta essa experiência auditiva.

Hoje tenho que me desdobrar para aprender duas línguas ao mesmo tempo, adaptar-me com novas culturas, tenho lições vivas de história e geografia diariamente.

A vida me jogou para lá e para cá e tenho que lutar com minhas próprias resistências e ignorância.

E quer saber de uma coisa, estou achando tudo o máximo. É difícil se reinventar, mas podemos muito mais do que imaginamos. Muito mais!

– Filho, sim, nós humanos sabemos que podemos mudar e criar, porém, é preciso acreditar nisso e aceitar desafios.

Fiquei pensando em tudo o que o Walter Elias Disney criou… como uma cabeça pode influir tanto…

Naquele mundo de fantasia, também vi o excesso de cores, barulho, consumo. Fiquei incomodada, bateu aquele vazio que foi me puxando para baixo. Senti um misto de confusão, culpa por estar ali enquanto muitos morrem de fome, de guerra, de desilusão. Tive muitos outros sentimentos pertubadores.

O bom foi que logo cai na real e não me deixei levar por essa onda de pensamento, me veio certa consciência:

Cristileine hoje você até pode não estar aqui para realizar seus sonhos, mas têm muita gente sonhando aqui, respeite, você pode curtir a realização do outro. Você pode respeitar o querer ser criança. Pare de criticar e achar que tudo é futilidade. O mundo já anda bastante rígido. Relaxe. Veja a força da criação, o segredo é saber aproveitar onde está, sem julgamento.

Olhei para os lados e vi muitos sorrisos. Sorri também, estou aprendendo lidar com o negativismo e dar respostas à depressão.

Volte ao princípio:

Fico pensando na chance de…