Fábula IV – Do isopor.

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Isopor

Ele era um pedaço de isopor velho levado pelo vento. Mesmo sendo leve, resistente e impermeável, ele não perdoava os erros dos outros, então voava para disfarçar o sofrimento próprio e alheio. Ele não parava nas mãos de ninguém porque as sujava com as marcas do julgamento.

O isopor voou e voou por léguas, até trombar com a porta de uma igreja e se despedaçar em pedaços mil. O padre assustado sentiu cheiro de pecado no ar, correu para a porta, que fica entre o céu e o inferno, e tentou reciclar o material perdido com toda a sua oratória, usou também incenso, vinho e até água benta.

Aos poucos o isopor foi se reconstruindo e tomou a sua forma fenomenal de isolante térmico e acústico, voltou a ser o voador, o dono da verdade.

Perspicaz e cismado como só era aquele poliestireno, logo se fez imponente e incontestável. Então, começou voar no confessionário e delatar tudo o que ouviu, e tudo o que não ouviu, enquanto estava contido por lá.

O sacerdote havia esquecido que não tinha a capacidade do isopor, pois, no isopor não se prolifera a criação de microorganismos. Já nos homens…

No topo, o isopor fez o padre lhe pedir perdão.

E assim termina uma estória, que nunca se fez, que não tem moral, que nunca ninguém contou.
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Fábulas III – Mais chifrudo.

Em tom de desafio o veado perguntou para o bisão qual era o mais chifrudo dos animais na face da Terra.

Sem titubear, o bisão respondeu para o veado que o animal mais chifrudo eram os homens.

– Como assim? Não entendi, respondeu o veado num balançar de chifres.

– Pense bem, todos os dias os homens nos vêem pelas jaulas e ainda assim acham graça.

Intrigado o veado ficou sem argumentos. Ambos constritos em um zoológico de uma mega capital.

Moral da história:

  • Zoo pode ser lógico, mas antagônico ao habitat natural.
  • A liberdade é essencial para qualquer animal, inclusive para humanos.

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Fábulas I – O urubu e o papagaio.

Fábulas II – O pato e a lagartixa.

Fábulas II – O pato e a lagartixa.

O pato andava ciscando no mato quando viu uma lagartixa.

Ficou assustado e curioso, mas, se valendo de seu tamanho e força, grunhiu um tremendo quá quá quá e começou no rabo da lagartixa a bicar.

A lagartixa matreira rapidamente conseguiu escapar.

Atravessou túneis no mato e se abrigou entre as pedras geladas, não mais geladas que o seu próprio corpo,  mas para isso deixou para trás parte de si.

Os dias se passaram, o sol voltou a esquentar, e o rabo da lagartixa a regenerar.

Passado o apuro, parece que nada mudou na vida de ambos.

O pato continua sendo pato e a lagartixa sendo lagartixa.

Só parece,  porque nesse encontro uma parte se perdeu no grunhido e outra renasceu no corpo.

Moral da história:

Transcender vem em bicadas.


Veja também Fábulas I.

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Fábulas I – O urubu e o Papagaio.

De um lado um urubu rei que provocava calafrio só de ver. Majestoso…

Do outro lado um papagaio falante, irritante a todo instante. Dissonante…

Um dia foram capturados e viraram vizinhos de cela.

O urubu rei acostumado com a solidão, saiu do prumo, perdeu o rumo, não voa mais. Sem poleiro virou fuleiro.

O papagaio sem ter visão virou rei, repetindo a mesma podridão, certo de que pode comer toda carne da Terra.
Moral da história:
– Mais vale um pássaro voando do que dois na mesma cela.
– Cuidado para não ser poleiro e nem carne fraca.

* Atenção estou falando de animais na natureza e não de política. Mera semelhança é pura coincidência.