Literalmente é seu nome.

“Tia Cris eu vi as fotos

eu tava na barriga da minha mãe

Por isso eu num tava aí”

Acontece que eu casei há 15 anos e ela vai fazer quatro.
E quem garante que ela não estava lá?
Se ela me contou, só posso acreditar.
Quem falou que os adultos tem sempre razão?
As crianças vivem num mundo que sonhamos, o qual por muitas vezes almejamos voltar, sem ao menos lembrar como era viver lá.

Não sei se vou no seu casamento, mas comigo você sempre estará. Nasceu além da barriga da sua mãe, nasceu para nos avivar.

  • Quando ela nasceu, eu mudava de país, nada mudou entre nós, a não ser a dilacerante saudade.

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Herói dia a dia: eu e você.

Sou expatriada da melhor forma que se pode sair de um país e indo para outro país com o respaldo de uma empresa. Parece um sonho, ainda mais em tempos de crise, porém, isso não significa minimização de crises existenciais. 

Exemplo, um dia fui a um teatro que queria muito conhecer em Frankfurt, estava com meu filho, para assistir a cover da Tina Turner. Teatro pomposo com capacidade para mais de 500 pessoas, estava completamente lotado. Para mim foi o máximo, o espaço, os lustres, os assentos confortáveis de veludo, a acústica de primeira qualidade, as luzes, o musical muito bem elaborado. 

Meu parceirinho, única criança que vi por lá, perguntou porque todas as pessoas só dançavam mexendo as cabeça, cômico. 

Saimos de lá e fomos pegar o trem de volta para casa, era noite e muito frio. Ele estava com fome, falei na estação comemos algo, subimos a escada rolante, ele sentiu um cheirinho de queijo, quando na verdade fomos descobrir que era chulé. 

Quando chegamos no fim da escada nos deparamos com mais de 50 pessoas deitadas no chão, dormindo no frio que vocês conhecem do hemisfério norte. Elas estavam sem seus sapatos, cobrindo com o que podiam em colchonetes improvisados. 

Paralisei, mal tinha espaço para nós passarmos. Ficamos atônitos, sem reação por segundos. Olhei para meu filho sem palavras, e descemos a escada. 

De um lado meu garoto viu uma bela apresentação, que para ele era antiquado, cheio de figurões bem trajados, por outro lado viu a sempre moderna realidade da desigualdade social. 

De volta para casa eu perguntei: Será que são refugiados filho? Resposta: Claro que não mãe, refugiados aqui têm casa e assistência do governo. Passados os dias eu confirmei essa informação com outra brasileira que é professora aqui na Alemanha. Aquelas pessoas são na maioria gente que vivem  à parte do sistema, seja por opção pessoal, ou, por problemas familiares, mentais, drogas, etc. 

Naquele dia minha maquiagem desabou, a depressão gritou, eu queria fugir desse mundo. Chorei por me sentir tão pequena, a maioria das pessoas não imagina ver isso no chamado país de primeiro mundo. Fui do palco da arte, ao chão da realidade. 

Alguns conseguem viver em paz com isso tudo, eu não sou uma dessas. Sinto um misto de culpa, incapacidade, omissão, sei lá o nome que se dá para esse sentimento. 

Não acredito que nossos filhos possam andar seguros nessa Terra se tivermos outros sem pão, coberta, esperança, água potável. Talvez eu possa ser sonhadora, mas conformista jamais. 

Concordo com a letra da *música cantada por Tina Turner:

“Nós não precisamos de outro herói… nós deixamos apenas uma marca que será o brilho da história como uma vida.”

Algumas semanas depois desse dia comecei fazer o tratamento para depressão. Hoje consigo entender que não tenho como ser heroína, mas posso fazer diferença com meus dons e atos todo dia em casa, na rua, em qualquer lugar. Não posso mudar a história de quem não quer se mover, mas posso ser gentil e respeitar as pessoas, sendo expatriados, refugiados, platéia de teatro, moradores de rua. 

Antes de assumir um papel social, somos todos seres humanos e precisamos lembrar disso sempre. 


We don’t need another hero – Tina Turner.

  • Tradução da música por Vagalume: 

Nós não precisamos de outro herói

Fora das ruínas

Para fora dos destroços

Não pode cometer o mesmo erro desta vez

Nós somos os filhos

a última geração

Nós somos aqueles que deixaram para trás

E eu me pergunto quando nós vamos mudar isso

Vivendo sob o medo até nada mais restar

Nós não precisamos de outro herói

Nós não precisamos saber o caminho de casa

Tudo o que queremos é a vida além da Cúpula do Trovão

À procura de algo que podemos contar com

Tem que ser algo melhor lá fora

Amor e compaixão, seu dia está chegando

Tudo o mais são castelos construídos no ar

E eu me pergunto quando nós vamos mudar isso

Vivendo sob o medo até nada mais resta

Todas as crianças dizem

Nós não precisamos de outro herói

Nós não precisamos saber o caminho de casa

Tudo o que queremos é a vida além da Cúpula do Trovão

Então o que fazemos com nossas vidas

Nós deixamos apenas uma marca

Será o nosso brilho da história como uma vida

Ou terminar no escuro

É tudo ou nada.

Escolhas e consequências 

Abandonar o jornalismo, que me dava autonomia financeira e reconhecimento profissional.  Algo jamais experimentado na vida antes. Estar ciente que esse mesmo jornalismo roubou a arte poética, livre e profunda deu escrever. Por seu caráter crítico, factual, comercial, por seus prazos estreitos.

Certa vez escutei de um editor em um jornal de grande circulação: “A fonte é problema seu, se não tem, invente”, duas semanas depois fui internada com pedras no rim. Por essas e outras, desinteressei completamente por assinar reportagens, me dediquei a ser pauteira, fazer parte da legião de trabalhadores que fazem a engrenagem funcionar, por detrás das câmeras, ainda que com menor salário e pouco reconhecimento. Só no anonimato da pauta, lá na produção de conteúdo, pude ter mais sucesso e respiração. Pude escutar mais as pessoas, pesquisar, investigar, descobrir.

Esclarecendo os jargões:

“fonte” em jornalismo é a pessoa, ou fato, que dá veracidade à informação, é o informante, inventá-la é como criar um personagem fictício, pra mim isso é antiético.

“Pauteiro” é o profissional que fica por traz da reportagem busca, colhe e planta informações para o repórter.

Desde a faculdade sabia que não era o jornalismo que eu queria, no entanto, escutei as amigas que me falavam “vai segue, você não tem outro caminho, você ganhou a bolsa de estudos, tenha gratidão”. Tive!

Depois, abandonar o jornalismo já formada e atuante, para casar e seguir os passos do marido mundo a fora, foi uma decisão árdua.

Assumir a posição de dona de casa, mãe, esposa e receber o título de madame. Ser reconhecida agora como a mulher do fulano, dependente, a que casou com o bem sucedido e não trabalha mais, em suma a interesseira, a folgada…Aff

Ter prazer em cozinhar marmitas para os filhos levarem para escola, poder acompanhar o crescimento deles no vai e vem do trêm. Limpar o chão, às vidraças, os banheiros com um headphone escutando meus programas favoritos pelo YouTube, sempre é tempo de aprender. Buscar flores para enfeitar a mesa, ainda que ninguém as vejam, admirar o trabalho feito. Muita satisfação!

Ser expatriada, trocar fuso horário, alimentação, relações, linguagem. Conviver com as constantes viagens do marido, alguém tem que pagar as contas, alimentar as crianças e o governo insaciável. A família paga o preço do sucesso (ou do fracasso) nessa vida moderna.

Tentar fazer novas amizades, mesmo mudando de cidade a cada dois anos, agora de país. Sem tempo de formar novos vínculos, sem ter os antigos vínculos por perto…

Me sinto uma sombra, a sombra dele, isso às vezes me perturba, tento pensar que sou a sombra de uma árvore que acolhe e dá alento.

Querer se envolver num trabalho voluntário, mas não saber se expressar direito com as pessoas, se sentir incapacitada por isso. Sem palavras, sem ação, vazia, frívola.

Assumir os cabelos brancos antes dos 40, ainda que todos dizendo você envelhece assim. Encontrar sempre a mesma senhora no trajeto do ônibus e perceber que ela também parou de pintar os cabelos. Se sentir bem por isso. Trocar sorrisos mútuos. A gente influência e é influenciado a todo momento.

Explicar sem palavras para suas amigas e família que você os ama, mas que precisa ficar sozinha. Que não tem jeitinho com as coisas, que a doçura muitas vezes não saí, sou mais Fera que Bela.

Ganhar fama de rabugenta e se sentir feliz por isso. Ser realista e ser confundida com pessimista. Não saber se maquiar. Gostar sim de escutar música depre e assistir drama, isso faz sentido pra mim. Por que não?

Ir agora procurar se o “porque” se escreve junto ou separado. Como assim jornalistas sabem de tudo não é? Não, não é.  Sou desligada, isso eu sei, e em muitos assuntos desinformada. Vexame para o jornalismo, déficit de atenção? Talvez falta de base sólida na educação primária.

Morar num país e estudar a língua de outro. Preciso ir em reuniões da escola das crianças, médicos, ter contatos com os outros pais.

Tenho que falar, não tenho voz. Cadê eu nisso tudo, cadê?  Tem noção como a linguagem domina a vida da gente? Por isso que dizem que conhecimento é poder. Queria saber mais da língua falada aqui nesse lugar para entender mais da cultura e do povo. Me sinto vendida igual quando eu trabalhava na assessoria de imprensa de uma Câmara de Vereadores, ganhava super bem, pagavam meu silêncio.

Não saber se comportar em alguns ambientes sociais por não gostar daquelas regras, convenções e modismos. Achar que o sistema educacional é libertador e opressor, o que os distingue é a autonomia e condução dos mesmo. Hoje a maioria é opressor.

Conhecer diversos países, ser grata por isso, inimagináveis belezas e história viva, mas achar que tudo isso é ilusão…

Aconchego tenho na casa da minha mãe, numa cidade de cinco mil habitantes, não só pelo colo, pelas raízes, como também pelos princípios que nasceram ali.

Lá eu também era essa garota introvertida, que preferia a biblioteca, os pássaros cantando e o cheiro do eucalipto. Adorava brincar de cinco marias e um bonecão de plástico. Naquela época não tinha tanto games, eletrônicos e turismo. Ainda que tivessem meus pais não tinham condições financeiras para isso. Sorte deles que não foram contaminados pela indústria do entretenimento. Que tira o homem da essência de si. Continue pescando pai, aí também mora a sabedoria.

Com essa história toda,  descobri em mim a persistência, resta desenvolver a resiliência. Você consegue perceber que para a depressão não tem tempo e nem lugar, não depende das suas poses, estudos, vontade, caráter?

Note que: sim depressivos tem vida, escolhas e consequências, como qualquer um.

Nossa essa história não tem fim, vivências de 08 e 80…estou com insônia, boa noite.