É a pessoa que faz o lugar

Meu pai veio passar alguns dias conosco. Dessa vez eu estava mais apreensiva do que as demais. Ele sempre esteve presente em nossas vidas. Acho que já falei por aqui que nesses 15 anos de casamento mudamos 7 vezes de casa entre Paraná e São Paulo. Essa é a primeira vez que moro três anos e meio na mesma casa aqui na Alemanha. Em todas meu pai estava junto dando seus pitacos.

Somos bem diferentes um do outro, ele adora conversar e cantar, eu gosto de silêncio; ele é carnívoro ferrenho, eu tenho dó dos “bichinhos mortos”; ele é todo ativo, eu passiva; ele vive no mundo das experiências, eu no dos pensamentos.

Meu pai não sabe ler, gosta de assistir o Datena e escutar música caipira. Por esses dias parei com minhas atividades externas, leia-se estudar alemão, para poder dar atenção para eles (mês retrassado veio minha mãe e sogra), afinal temos pouco tempo de convivência pessoalmente por ano.

Com as “meninas” foi beleza, afinal ainda estava calor quando aqui elas estiveram, e nada como uma boa praça, lojas e fazer umas comidas apetitosas não lhes agradassem.

Agora com meu pai é diferente, está frio e não dá para ficar se expondo ao tempo. Não temos canal de tv em português, só vídeos por YouTube, e preciso fazer bastante carne para ele.

Depois do almoço geralmente sentamos na sala e ficamos conversando, ou, assistindo clipes caipira no Viola minha Viola, escutando os causos de Rolando Boldrin, Mazzaropi, etc. Está sendo prazeroso escutar as músicas de raiz como Tonico e Tinoco, Tião Carreiro e Pardinho, entre outros.

Mas hoje depois do almoço o papo foi diferente:

  • Sabia que você está bem diferente do que o ano retrasado quando estive aqui?
  • Por que pai?

  • Você estava tão estranha que nem reconheci, eu tinha vontade de te pegar e levar embora.

  • Agora eu sei disso pai, mas naquela época eu não sabia.

  • Você está se tratando da depressão, né?

  • Sim.

  • Então, continua porque está te fazendo muito bem.

Dei uma desmontada na guarda, nunca pensei que ele fosse falar comigo de maneira direta sobre a depressão, determinados assuntos sempre tratávamos nas subliminares…

Contei para ele como é se sentir sem vitalidade, expliquei que essa é a primeira vez que busquei ajuda, que passei todos esses anos sem saber o que era aquele estranhamento com a vida. Falei até de quando era criança e tomei um coquetel de remédios e depois provoquei o vômito.

Ele passou por muitos mais desafios que eu, como a infância paupérrima, com a pai que lhe permitia estudar um dia sim, no outro não, porque precisava catar algodão. Na juventude onde casou cedo e foi muitas vezes explorado como mão de obra barata; uma vez foi até passado para trás por um patrão porque não sabia ler o que ele assinou. Na vida adulta quando venceu por conta própria o alcoolismo e o cigarro. Vícios que quase nos destruíram como família. Seu Leão conta essas e outras histórias com muito riso e deboche com o tempo. Admirável!

O que ele quer de qualquer jeito é um álbum de fotos daqui nos passeios para, como ele diz, mostrar para todo mundo. Essa exposição me arrepia de aversão.

  • Veja bem, eu um pé rapado, sem eira nem beira conhecendo esse mundão. Quero um álbum como o de casamento pra ficar lembrando depois, pra mostrar pros amigos, pra deixar pros meus netos. É legal dividir memórias.

Parou, pensou e completou: Mas, é fácil se gabar com o que é dos outros porque se dependesse de mim…

  • Pode parar, pode parar, pode parar. Tudo depende de você pai e você não está aqui de favor. Se está aqui é porque merece, não é só o dinheiro que nos leva de um lugar para o outro, mas tudo o que gente planta, deseja e o que destino reserva.

Conte quantos milionários que você conhece que nunca sairam do lugar, o que também não de todo ruim, pois, não é o lugar que faz a pessoa, é a pessoa que faz o lugar, e eu estou aqui porque você me pôs no mundo.

Ele deu seu sorriso costumeiro, e eu, ah eu realmente quero acreditar nessa minha última frase.

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