Sem escutar

Num saco de lixo

Soube muito mais de você

Do que pressupunha

Nunca imaginei

Que ainda gostava

De bolinhas de gudes

Como conseguiu
quebrá-las?

E o que signfica

Aqueles vários tubetes
vazios?

A coleção de selos
que nunca foram colados

O diário que nunca começou

Os dias passaram

Sempre fui sua
faxineira

Mas amanha não

Não

Estarei em outra casa

Você também

E nem para me deixar
um recado

Que precisava
de mim

Nunca te vi
sem um sorriso nos olhos

Agora limpo

Seu canto
Sem som
Sem sol
Sem encanto

Sabendo que

Jamais receberei

O teu estender de mãos

Penso que

Se eu prestasse atenção
No seu lixo
Antes

Talvez não te visse

Com as mãos cruzadas
No coração

Levo para casa um porta retrato

Tão memorável e estático

Como essa situação

De inevitabilidade

Do ser

Estou me sentindo um lixo

E sinto que você está

Recolhendo meus caquinhos

Enquanto nós dois

‘Ao pó de ce mos’

Escuto a nona sinfonia

Que Beethoven criou

Sem escutar.

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Extremas e etéreas.

Aeroporto

O choro sem consolo

O grito de alegria

A espera que não finda

Extremas

Idas e vindas/

Destinos que se esbarram

A pressa e as convenções

A porta que não abre

Abraçam os corações/

O cão que lambe o rosto

Mulher virou criança

Sentada ali no chão/

Infante que não pára

O tombo não machuca

Com mãe tem proteção/

Amigas tiram foto

Sorrisos são espelhos

Das ânsias e comoções/

As pernas estão doendo

Assentos não seguram

O que explode ao peito/

No bagageiro

Nos passeios

Nos achados

Nos perdidos

Na sala de orações/

Cada um na busca

Do aéreo

Do porto

Nas etéreas emoções.

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Descanso.

Acabou…

Queria mais…

O colo da minha mãe 

Que agora não se resume a braços e olhares, mas de corpo inteiro em dedicação com mais paciência e sabedoria.

A voz do meu pai 

Que já não é mais grossa e altiva, mas conta anedotas e causos de família.

As brigas e brincadeiras com meus irmãos 

Que já não são mais somente comigo, também com seus próprios filhos e netos. 

Encontrei também preciosas amigas que cresceram

Mas continuam com ar de crianças querendo aprontar travessuras. 

Acabou, estamos todos entregues às responsabilidades

Todos diferentes e daqui a pouco distantes outra vez

Mas o cheiro de eucalipto continua a abrir nossas respirações 

Nas mais longínquas terras 

Só queria mais um pouco…de férias.

Graças dou á família que me fez caminho.

“O descanso é mais edificante quando podemos deitar aos pés da raiz.”

Brasil, Janeiro/2018.