O beijo do beagle.

Ontem, estava eu passeando numa cidadezinha alemã procurando descobrir seus encantos, programa que geralmente fazemos em família nos finais de semana.

Entre esconde esconde e pega-pega, tudo para fugir do frio e aproveitar o lindo sol que enfim dava o ar da graça, eis que surge do além um beagle carregando sua dona.

Isso mesmo, não é erro de escrita, quem já teve a graça de ter um cachorro dessa raça sabe bem que ele é hiperativo, tem tanta energia que põe a gente para correr.

Entre um simples olhar entre nós, eu e o beagle, corremos um para os braços do outro. Eu me rendi de joelhos no meio da rua, alisei o bichinho, e comecei usar aquela voz infantil que utilizamos para brincar com quem amamos. Ele respondia com o rabo e mais aproximação pedindo quero mais.

Não vi nada o que acontecia ao lado, mas quando meu coração retornou no meu peito, me levantei do chão, vi a cara de perplexos da minha familia. Então, a dona do cachorro puxou a coleira dele e foram embora.

Em minutos, vivi numa imensidão inarredável. Daí comecei escutar a repressão: “Você está louca? Esqueceu de onde está vivendo? Que aqui (Alemanha) não podemos agir como lá (Brasil)?”. O fato é que nem liguei, o beijo do beagle valeu por qualquer falação.

Antes de virmos para cá, tínhamos um beagle que agora com doze anos mora com minha mãe. Essa decisão foi um dos meus primeiros traumas da mudança de país: deixar para trás quem você criou desde filhote, quem foi seu parceiro mesmo antes dos filhos chegarem, quem estava contigo mesmo quando todos só pensavam e estavam cuidando de suas próprias vidas, quem me precisava e me colocava para caminhar…

Foi uma decisão difícil que despertou, e por vezes desperta, sentimentos ambíguos. Ele ficou por 3 principais motivos: idade, burocracia adaptação.

Idade: não sei como seria a reação do corpo dele numa viagem tão longa de avião, tendo em vista que teria que viajar no porão sozinho e é sensível à barulho forte.

A Burocracia daqui já é conhecida mundialmente, papéis e papéis, controle e controle: ele teria que ser chipado; ter um atestado de saúde (documento expedido só por um instituto em São Paulo). Aqui cachorros tem que ser registrados na prefeitura local; paga-se uma taxa anual para ter o bichinho; se morder alguém o dono é o responsável; se a casa for de aluguel, o proprietário tem que por no contrato que aceita animais.

Quanto à adaptação, não pensei só no frio, pensei que ele é um baixinho encrenqueiro que adora arrumar confusão especialmente com os cachorros grandes. Tão valentão, que certa vez me defendeu de um pitbul, meu herói (Hero).

Por falar nisso, o nome dele é Rirol, risos, isso mesmo, escreve assim todo abrasileirado.

Aqui na Alemanha existe até escola para cachorros, onde eles aprendem a se comportarem em sociedade. A não provocarem uns aos outros, a não dar atenção para estranhos, a andar sem coleira na rua sem incomodar seus semelhantes e os humanos.

Por isso, minha família ficou chocada e me chamou atenção sobre o beijo do beagle. Passar a mão num cachorro estranho é atitude de falta de educação, como se você tivesse tirando a autoridade do dono…

Como foi bom ter sido irracional naqueles momentos. Senti o meu Rirol vindo me beijar, senti que era o momento deu livrar ele do pitbull do sistema.

Para mim, vidas sem cachorro são *Vidas Secas, vide a realidade de Fabiano e sua querida Baleia.

Já vou terminar esse longo texto, perdi a linha de pensamento, é muita emoção e saudade envolvida.

Desejo à vocês um beijo de beagle.

*Vidas Secas, livro de Graciliano Ramos, imperdível, conta a história de uma família de retirantes que foge da seca do sertão nordestino no Brasil.

Abaixo fotos do Rirol em três fases: vovô, jovem e bebê. Numa delas estou junto, nossos cabelos… quanta diferença (branqueamos). O beagle que me beijou era parecido com a versão jovem.

Beagle
Natal de 2017, Brasil. Passatempo favorito: dormir.
Beagle
Sempre de olho na rua.
Curitiba, 2005. Aprendizado de toilet.

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