Depressão com Poesia

Primeira saída

Depois de 63 dias confinada em casa por causa da quarentena chegou a vez de ir passear na floresta e comer em um restaurante aqui na Alemanha onde moro atualmente.

Na floresta estava tranquilo, bastante gente, caminhando, correndo, pedalando, em movimento, mas sem aglomeração. Aquele ar, cores, sons, pedaços que se encaixam em meu quebra-cabeças…

No restaurante havia fila, distância de um metro e meio cada, só entrava com máscaras e as mãos esterilizadas com álcool gel por um atendente que controlava o fluxo na porta.

Lá dentro, mesa sim, mesa não, com pessoas. Todos os garçons com máscaras. Saleiros, cinzeiros, temperos, nada na mesa, estavam num outro espaço onde eram limpos constantemente.

Tivemos que preencher um formulário com nome, endereço, horário, número de pessoas presentes que certamente irá para o governo.

O clima e o astral estavam agradáveis, a comida de um lugar típico à beira rio deliciosa como sempre, a cerveja alemã indescritível!

O marido encontrou um colega do serviço, se cumprimentaram pelos cotovelos. Eu encontrei um colega do curso de alemão que estávamos fazendo antes da pandemia, ele é um jovem francês que trabalha de aupair aqui, ele disse que o curso contina online, eu não fui incluída na turma. Perguntei quem estava: fulana, ciclana e beltrana, todas jovens como ele… senti o peso da idade, da lentidão e do ficar pra trás.

Retomei meus pensamentos olhando para o sol, tão raro por essas bandas, para os filhos e para a cerveja gelada. A primeira saída não é um lugar para permanecer o impermanente ser.

Imaginei como é estar no grupo de risco (com ou sem pandemia). A vida segue para todos, aos visíveis e aos invisíveis. É uma questão de sempre saber cuidar da imunidade.

Foi um desafio olhar para o cardápio, apesar de ser um restaurante há muito conhecido por nós, meses antes da quarentena decidi abolir a carne da minha dieta, tanto por respeito aos animais quanto por não gostar muito do sabor, apesar de me fartar desse alimento por mais de 40 anos – sou filha de ex caçador, atual pescador, churrasco em casa era/é cerimônia, até tatu e cobra já comi enganada, mas, nunca fui afeita, só agora me veio a garra e a coragem de assumir meus gostos e vontades…

Percebi que sem falar o idioma e comer a comida vigente do nosso tempo nosso poder de escolha e interação fica cada vez mais limitado. Por isso deve ser mais fácil seguir o fluxo, gorduras, falação, conservantes, corantes, aromatizantes e simpatizantes estão em todo e qualquer lugar.

Hoje para ser saudável é preciso esconder o rosto. E eu só queria um almoço em família, voltei com todas essas ideias quebrando a cabeça, e, a esperança de deitar na rede e tudo isso passar breveMente para que o balançar de mãos seja com “e além” de água e sabão, de palavras e alimentos.

7 thoughts on “Primeira saída

  1. A adesão por aqui não é total também, mas ainda bem foi suficiente para passar o período crítico. Hoje minha filha voltou para escola. Foi um misto de apreensão, alívio e incertezas…

  2. As escolhas são limitadas, mas temos a possibilidade de fazê-las. E de questionar, de pensar e repensar. Agora temos também essa gigantesca preocupação constante para nos assombrar. Não é fácil, mas vai passar.

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