Os implacáveis

Nada fica como é. Pedra sobrevivente de 2000.

Tudo o que sei dele é que veio de Gibraltar num navio. Fazia parte dos brancos europeus que viriam substituir os negros, vindos anteriormente com o Navio Negreiro, para o “progresso e ordem” da nova Califórnia brasileira.

Cabelo de fogo, briguento e marrento. Ganhou nome de rua na cidade.

– Mas o que ele fez de importante?
– Não sei.
– Criou todos os filhos sem nenhum virar bandido.

Fala sério, ainda continuam acreditar nessas histórias contadas de bandido e mocinhas.

Que pena! Não sabem ler. Mas, isso não significa que são idiotas. Há saberes que só mastigamos com terra e suor.

Todavia, se a maioria não olha para alguns seres humanos durante o seu curso de vida, quem dirá na morte. Quando nossa presença é fadada ao esquecimento, mas, às vezes, duram as idéias e os ideais. Duram sim.

Por um tempo, o nome daquele bravo homem bravo continuará na placa da rua, na placa do túmulo, no placar de erros e acertos dos filhos. Os quais continuam lutando para acreditar que o Brasil tem jeito, além do jeitinho.

Esses anônimos e destemidos brasileiros são os implacáveis, pois, mostram (mostraram) na pele e nos ossos toda a nossa apática mazela social.



* Sou da região de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, lugar que já foi chamado de a Nova Califórnia brasileira. O que mudou drasticamente depois da passagem de prefeitos como Antônio Palocci e Dárcy Vera. Política à parte, mesmo porque o prato do dia não é um dos melhores… Se voltarmos na história veremos que nos primórdios nem podiamos cozinhar. Hoje podemos saborear do doce, do amargo, dos enlatados, dos artificiais. Porém, se observar bem o guisado verá que são os destemidos anônimos quem abrem as matas homeopáticas do Brasil.

* A foto, que faz parte das fotomontagens que publico no Insta, foi feita numa praça de Frankfurt. É uma anedota ao fim do mundo que disseram ser em 2000. Os céticos diriam que o mundo acaba quando morremos. Eu diria que depois da vida de uma pessoa “nada fica como era antes”. Nascemos com esse efeito de mudança em tudo e em todos.


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