Depressão com Poesia

O desmame

Intercepções

Vou contar dessa última consulta ao psquiatra. Foi tudo bem, exceto o tombo que levei na escada porque eu estava correndo e atrasada.

Sabe como é, brasileiro tem fama de não ser pontual e esse é um valor primordial para os alemães. Então, fico aqui lidando com os estereótipos e procuro não dar motivo para reclamações. Mas, dessa vez não deu, peguei o trem errado, aí só restou mesmo a flexibilidade, e esse é um dos nossos diferenciais que se soubermos canalizar vamos longe…

Havia três meses que eu não tinha retorno, como disse anteriormente as consultas estão cada vez mais espaçadas por causa da melhora do estado depressivo.

Dessa vez o psquiatra me pegou de surpresa dizendo que eu já poderia começar reduzindo as dose do antidepressivo até parar, ou seja, o desmame. Perguntou se era isso que eu queria.

Engasguei, sempre foi isso que eu quis, mas, deu um gelo na barriga em pensar que terei que lidar com o meu humor sozinha…

Logo cai na real: Cristileine você já saiu do buraco no qual não conseguia escalar, agora é só vigiar para não voltar a cair e ser enterrada viva. Tente, se não der certo volte aos remédios. Qual o problema? Eles existem para nos auxiliar, não é mesmo?

Mas, não foi isso que respondi para o médico.

Doutor vou esperar passar o inverno. O senhor sabe bem como ele me afeta, esses dias sem luz e gelados são desafiadores para mim. Tenho mais sono e falta de vontade de sair pra rua.

Ele compreendeu muito bem, pois, reconhece que nessa época aumentam os casos de depressão e até de suicídios em toda Alemanha. São fatores ligados a produção de vitamina D e melatonina no organismo.

Sai de lá com outra receita e a pergunta: Por que a senhora atrasou hoje mesmo?

Queria explicar para ele que eu detesto cair, mas que às vezes acontece, como faltou-me vocabulário, dei uma risada sem graça, peguei meu cachecol e disse tchau.


8 thoughts on “O desmame

  1. oi, Cris. bom, deixa eu te contar o que se passou comigo pós quimioterapia, e a consulta com o apoio psicológico do Hospital do Câncer onde está hoje concentrada minha vida. a primeira pergunta foi como estava me sentindo. minha resposta foi simples: – assustado. – assustado?, perguntou a psicóloga. – e eu: sim, agora sem nenhuma medicação é tudo comigo. antes me sentia protegido, agora é um ponto de interrogação. – ela, tranquila, disse: pensa que os exames deram negativos, todos. agora é tudo contigo. – olhei em silêncio para ela, e repeti: é tudo comigo. todo dia acordo com a sensação de que mais um pode ser riscado no calendário. estou bem, e bem mais tranquilo e os pontos de interrogação não me atormentam mais. gostei muito de ler teu relato. é importante e muito sensível. daqui de Poa sinta-se acompanhada. (ah! cair na escada é comigo mesmo, perdi a conta de quantos tombos levei e sei que ainda levarei…)

  2. Sempre foi com você Fernando, sempre. Todo dia que acorda é com você… É mesmo a medicação nos dá essa sensação de proteção, o susto também é uma proteção para alertar das quedas e dos atrasos, risos. Estou feliz porque você está aqui Fernando, mais um dia riscado. Boa noite.

  3. Cris, você, precisa vir a Minas… Mineiro não perde trem… Rsrsrsrsrsrs
    Quando der leia aí; se ainda , não leu…
    estevamweb.wordpress.com/2019/08/08/mineiro-nao-perde-trem/

  4. Eu tomo a vitamina d e sem falhar. No entanto, já há controvérsias com a sua toma. Tlvz, não tenha o efeito q se pensava, e na verdade, é um paliativo.
    Bem, enqto não decidem, vou continuar a tomá-la.

  5. Se a cabeça e a alma decidem que as energias da Primavera serão mais propícias para dar esse passo, está tudo certo. Quase tudo na vida tem um timing, um momento em que estamos mais preparados para algo, seja para avançar, seja com resistência para as surpresas que possa surgir.
    Força e vontade não falta por aí!

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