Depressão com Poesia

Das teorias e da prática

Do livro “A quietude é a chave”, de Ryan Holiday.

“A capacidade de ver beleza em toda parte, mesmo no banal e no terrível”.

O que há de mais terrível para você? Para mim sem dúvida é lidar com a depressão. É um vazio, falta de significado e sentidos, misturado com a sensação de culpa, inutilidade e vontade de não estar aqui…

Sintomatologia à parte, quero dizer que esse diagnóstico também é uma grande oportunidade de nos re’tomarmos’.

Você volta à raiz, procura por novos comportamentos e hábitos, pesquisa muito sobre o assunto, e, quando percebe que as forças e os argumentos se esvaem, você conclui:

é a aceitação, é o ser poeta, é o ver beleza no banal e no terrível.

Essas minhas reflexões vieram após ler mais essas reportagens:

Por que a teoria da química do cérebro não explica transtornos mentais – UOL Notícias

A epidemia de doença mental – Revista Piauí

Basicamente são contrapontos ao tratamento da depressão como doença provocada pela de falta de captação de certos neurotransmissores (serotonina, dopamina, gaba, etc.), e sobre os efeitos colaterais dos antidepressivos.

A causa e a solução para a depressão dividem até os estudiosos do dilema. Há a ala dos que dizem que é uma doença mental, a dos freudianos com o subconsciente, e a dos que dizem que a depressão é uma resposta sadia a um mundo insano.

E você o que pensa?

Como já ressaltei aqui em outras postagens a depressão é multifatorial e precisa ser tratada como um todo, nas mais diversas áreas (física, psica e espiritual); não há fórmulas mágicas; a evolução histórica vem quebrando alguns paradigmas; a neurociência está se desenvolvendo plenamente nos últimos tempos.

Acontece que o aumento dos casos de pessoas (adultos e crianças) com transtornos no humor está numa velocidade muito maior do que as tentativas de erros e acertos.

O que quero dizer com isso é que, sim, precisamos encarar a depressão de frente e procurar a beleza.

Procurar beleza, procurar ajuda e procurar ajuDAR-SE.

O lema desse blogue é transformar a dor em arte. Viver é uma arte que exige paciência e dedicação.

Da morte todos temos certeza (alguns têm medo), não há o que se possa fazer quanto a esse fato. Da vida temos incertezas e a capacidade de transformação.

O que faremos com ela?

16 thoughts on “Das teorias e da prática

  1. Escreva, escreva sempre. Arte será tudo aquilo a que você chamar de arte. Escreva.

  2. Felizmente que nunca passei por uma situação dessas, mas creio que esta frase que a Cris escreveu “Procurar beleza, procurar ajuda e procurar ajuDAR-SE” resume muito bem a atitude a ter perante uma depressão e que tem sido a atitude da Cris. E que todos temos acompanhado com admiração pela força e empenhamento.
    Creio que essa é uma bela frase para enfrentar um acumular de circunstâncias a que o corpo, a mente e as emoções não têm simplesmente a capacidade de se adaptar e acompanhar.
    Desejo um dia tranquilo.

  3. Oh! Obrigada! Me curvo diante desse seu DAR-SE.
    A falta de sol, que o tempo nos impõe nessa estação, é bem complexa para mim. Mas, o carinho ilumina e nos trazem “dias tranquilos”.
    Essa capacidade de adaptação (independentemente das estações) é que faz os homens saírem do lugar comum. Como diz Rubem Alves é o incômodo que faz a ostra produzir pérolas.
    Super abraço Dulce.

  4. Eu procuro ver a depressão como muitos fatores interligados. Corpo, mente e espírito, por assim dizer. Acho necessário compreender a questão biológica, neurológica, genética, até para vermos a depressão como uma doença legítima, que precisa ser tratada e vista com empatia, não com preconceito. Mas não descarto nunca a questão do ambiente, esse mundo caótico em que estamos inseridos, pois isso me ajuda a rever meu entorno e como tenho lidado com ele cada vez que me encontra novamente a depressão. E também acredito muito na questão do inconsciente (como boa admiradora de Freud e Jung rs), e em como há também um mundo caótico dentro de nós, que precisa de cuidado e atenção. Para mim, por fim, uma das melhores formas de acessar esse universo interno e dialogar com ele é através da arte. 🙂

  5. Oi Bia, às vezes questiono essa palavra “doença” não pelo estigma e conotação negativa que ela traz, mas pela redução simplificada que isso pode causar… Hoje vejo que a depressão é uma resposta social e uma falta de conhecimento pessoal, no entanto, amanhã posso ver diferente… isso só dá em gente. Eita essa mania de rimar, viu. Super abraço Bia.

  6. O reducionismo é um problema grave na área médica (e não podemos esquecer que a psiquiatria é uma especialidade médica). Mais que isso, há uma questão muito subjetiva e de difícil diagnóstico quando falamos em transtornos mentais. Não há exame que possa mostrar a causa ou detalhar o tipo de sofrimento pelo qual passa determinada pessoa. É pessoal, impalpável. E confuso. São diversos transtornos e subtipos. Você é esquizofrênico ou esquizoafetivo? Difícil dizer. O que não se pode negar é o sofrimento. O embotamento. A dificuldade em levar a vida adiante. Esta última, para mim, é a verdadeira definição de doença, seja do corpo ou da mente. Não conseguir fazer o que se deseja ou que se fazia antes com facilidade é o alerta de algo que precisa de atenção. O que fazer então me parece ser o mais complexo. Hoje a primeira medida é medicar. Mas não vejo dessa forma. Primeiro porque discordo desde o início com a visão de desequilíbrio químico como causa dos transtornos mentais e afetivos. Segundo porque me parece que outras opções são mais benéficas e menos prejudiciais. Como terapia. Como se cuidar de verdade. Como tentar construir laços significativos com as pessoas que amamos. Nem tudo precisa de remédio. Mas isso é polêmico. Eu sempre soube que seria polêmico. Foi assim que escolhi um pseudônimo: Bia, o nome de minha primeira gata, Ribeiro, o nome da rua onde cresci. Mesmo nunca incentivando ninguém a parar o tratamento medicamentoso (pelo contrário, sempre disse que é perigosíssimo fazer isso sem o apoio de um profissional), sabia que seria criticada por minha escolha pessoal. Dito e feito. Fui chamada de louca e irresponsável por uma mulher que nem conheço. Apenas porque decidi não tomar mais medicamento sendo bipolar. Ela disse que isso traria danos ao meu cérebro. Que eu teria crises e não saberia me controlar. Sendo que ela mesma estava totalmente agressiva e num discurso hostil, descontrolado e sem lógica, No fim, tenho tranquilidade ao saber que tomei a melhor decisão para mim – para o meu indivíduo único, com um sofrimento único, numa vivência única. Embora não seja fácil seguir sentindo vividamente os conflitos internos, escolho me debruçar sobre eles ao invés de afastá-los. Afinal, isso ainda é melhor do que tomar medicamentos que no fim só emulavam em seus efeitos colaterais os sintomas da própria doença. Falta de libido da depressão x falta de libido do remédio, cansaço da insônia x cansaço de um sono artificial a base de calmante. e continuava tendo o mesmo número de crises e lágrimas antes e durante o tratamento. Tudo isso me faz pensar que ainda, mesmo no tão adiantado 2020, precisamos falar muito sobre saúde mental. Abraços!

  7. Ainda bem que as portas do conhecimento estão se abrindo, mesmo que lentamente. E dos meios de comunicação também, risos. Você usou uma palavra muito propícia “embotamento” afetivo, imagino que uma pessoa saudável não queira viver assim. É tudo muito complexo Bia… estou no meio de uma crise, bem agora que já tinha avisado o psquiatra que me sentia bem para deixar o antidepressivo. Acho ruim ficar falando porque muitas vezes nos julgam de vítima, de quem está carente. Isso mágoa ainda mais. Se o depressivo não olha com graça pra vida, como é que vai querer ficar chamando atenção dos outros? Fala sério… A diferença é que agora sei do que se trata e procuro não me render aos sintomas e a falação. Enquanto há energia está valendo, sei que essa agonia vai passar. A mega importância da terapia é que se consegue ver essas e outras coisas. Percebi por exemplo que com ou sem o remédio fico ruim no inverno. Espero que no futuro esse assunto seja mais facilmente compreendido para o alívio das próximas gerações. Abraços 🌹

  8. Tenho me esforçado por transformá-la em olhar de beleza pela ótica da poesia… Assim faço agora com a vista embaçada… A depressão deve ser um ‘embaçamento interior’… Nada melhor que a arte para ajudar a superá-la, pois a arte são os olhos abertos da alma…

  9. Bia Ribeiro, acabei de fazer uns cálculos, há 42 anos também não tomo mais antidepressivos… Saudades… Arrependimentos… Sinto que “saí de mim mesmo” graças as palavras de meu falecido pai: Mesmo se você cair eu sempre vou lhe estender a mão🤝

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