Depressão com Poesia

Carlos Drummond de Andrade – Dia Nacional da Poesia

Carlos Drummond de Andrade / imagem Wikipédia

Hoje – 31 de Outubro – é o Dia Nacional da Poesia no Brasil. Essa data foi instituída recentemente (lei número 13.131 de 2015) em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade.

Carlos Drummond de Andrade nasceu em 31/10/1902 em Itabira, Minas Gerais. Cidade que ficou marcada em sua memória e história, pois, mesmo morando no Rio de Janeiro a maior parte de sua vida, Drummond jamais deixou de versar sobre Itabira. Ainda assim, alguns concidadãos são ressentidos por esse longo afastamento.

Alguns anos vivi em Itabira, principalmente nasci em Itabira…

Tive ouro, tive gado, tive fazendas .
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!

Do poema “Confidências de um Itabirano”

Carlos Drummond de Andrade de Andrade morreu em 1987. Olha só, por dez anos eu pisei no mesmo solo que esse grande poeta. Ainda criança nem tinha noção da sua dimensão que cada vez mais cresce dentro de mim. Sem dúvida a maioria dos brasileiros, que como eu tinham pouco acesso aos meios culturais, já ouviram esses versos:

No meio do caminho tinha uma pedra.
Tinha uma pedra no meio do caminho.

Do poema “No meio do caminho”.

O poeta viveu duas grandes tragédias pessoais. A morte do filho Carlos Flávio meia hora depois de nascer, e a morte da filha Maria Julieta quando ela tinha 59 anos. Maria Julieta era assumidamente o grande amor da vida de Carlos Drummond, ela morreu 12 dias antes dele.

Formado em farmácia, funcionário público, ícone da poesia do Modernismo, antes disso Drummond foi expulso de um colégio jesuíta por “insubordinação mental” após discutir com um professor de português.

E agora, José?

Nessa última Feira Internacional do Livro em Frankfurt, tive o prazer de conhecer uma sobrinha do Carlos Drummond de Andrade, quem também mora na Alemanha, a escritora Regina Drummond.

Muito brevemente ela nos contou como eram as festas familiares quando iam receber o poeta. “Um corre corre com todos querendo oferecer o do bom e do melhor ao convidado ilustre”.

Percebi que a família Drummond respira literatura. Regina Drummond têm muitos livros publicados, gosta de gatos e vampiros e aconselhou os aspirantes a escritores: “Leiam, leiam muito, leiam de tudo”.

Por fim, vou terminar com dois poemas do Carlos Drummond de Andrade.

OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Necrológio dos desiludidos do amor

Os desiludidos do amor
estão desfechando tiros no peito.
Do meu quarto ouço a fuzilaria.
As amadas torcem-se de gozo.
Oh quanta matéria para os jornais.
Desiludidos mas fotografados,
escreveram cartas explicativas,
tomaram todas as providências
para o remorso das amadas.
Pum pum pum adeus, enjoada.
Eu vou, tu ficas, mas nos veremos
seja no claro céu ou turvo inferno.
Os médicos estão fazendo a autópsia
dos desiludidos que se mataram.
Que grandes corações eles possuíam.
Vísceras imensas, tripas sentimentais
e um estômago cheio de poesia.
Agora vamos para o cemitério
levar os corpos dos desiludidos
encaixotados competentemente
(paixões de primeira e de segunda classe).
Os desiludidos seguem iludidos,
sem coração, sem tripas, sem amor.
Única fortuna, os seus dentes de ouro
não servirão de lastro financeiro
e cobertos de terra perderão o brilho
enquanto as amadas dançarão um samba
bravo, violento, sobre a tumba deles.

Aqui mais poemas de Carlos Drummond de Andrade na voz dele mesmo

Agora me digam. É ou não é o poeta?


11 thoughts on “Carlos Drummond de Andrade – Dia Nacional da Poesia

  1. Tenho respirado este ar das serras de Minas, cujas alturas inspiram tantos poetas… meus ensaios estão aí… inspiração de Drummond, Adélia, Fernando, Guimarães Rosa… Escrever poesia em Minas, talvez seja, muita pretensão minha.. mas, a poesia me dá liberdade po-ética… abraços po-éticos Cris…
    Abaixo o link de uma das paráfrases que fiz de … no meio do caminho…
    estevamweb.wordpress.com/2018/04/04/no-meio-do-ar/

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