Saudade e vaidade

Amélia é o nome das minhas duas avós, elas sempre serão, então, o verbo está no presente apesar delas serem desencarnadas.

Amélia Leão era benzedeira, adorava fazer bolinhos de chuva, pães, café e chás, quando ela beirava o fogão à lenha, ou, à sua horta medicinal era certo que vinham dali cura, magia e ternura.

Amélia Alves era bela e risonha, pele de seda, eu perguntava qual o seu segredo, ela respondia que era lavar o rosto com a primeira água do arroz. Ela morreu muito jovem, acamada e revoltada com a limitação.

Como diz a eternizada música “Ai que saudades da Amélia”, de Ataulfo Alves e Mário Lago:

“Amélia não tinha a menor vaidade,

Amélia que era mulher de verdade”

Ao menos foi assim com as Amélias da minha vida. Cumpriram os papéis sociais esperado delas. Vieram, viram e viveram conforme o tempo histórico de servidão. Agregavam à todos e eram tratadas como agregadas, se um dia questionaram os porquês foi silenciosaMente.

Só depois de crescida vim a descobrir que Amélia Leão era órfã e pouco se sabe de sua criação e que Amélia Alves era a segunda mulher do meu avô. Histórias de família que ficam no baú secreto como se fosse afrontoso ser humano.

Amadas avós, hoje posso declarar até em público as minhas indignações, fraquezas e desejos, mas, isso não faz de mim uma pessoa mais bem sucedida. Agradeço cada passo que deram para que eu possa ter voz, ainda que muitos poucos possam me ouvir / ler, nossa história é contínua.

Nas férias passadas, aproveitei a abundância das ervas brasileiras e tomei muito chá de capim cidreira, vira e mexe lá estava eu com a arruda atrás da orelha!

Hoje depois do banho usei a água do arroz na face, afinal minha pele já está começando a ficar amadurecida e tenho desenvolvido amor pela vida. Imagino que vocês devem estar feliz com isso.

Do mais, tenho agarrado-me na busca de sabedoria apesar de conhecer o capítulo 1 inteiro de Eclesiastes:

“Vaidade das vaidades, TUDO é “vaidade”.

Ai que saudades das Amélias.

5 comentários

  1. Que lindo! As mulheres de verdades, as Amélias e Cris dá seguimento avivando as mulheres de verdades.
    Sempre eu digo que as pessoas não morrem enquanto as histórias se levantam avivando no presente o passado.
    Adorei!
    E não esqueci que sou da “erva” aquela que acalma.
    Beijinhos carinhosos, minha linda!

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  2. Claro que estou feliz… Há quanto tempo acompanho seus versos e posts, ou sem posts em versos? 3 anos, um pouco mais… Já somos mais mais que corresponsáveis… Cativamos mutuamente… Coincidência as Amélias… ou não? Vá saber!

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