O alimento e o tempo

Além do inesquecível aroma espalhado pela casa, o que mais me intrigava era como aquela bolinha subia na água.

Ficava ali a posto, oras torcendo para a emersão e noutras para a imersão.

Tinha certeza que ela sabia de tudo, sabia que eu como toda criança desafiava as leis e sabedorias vigentes com a inerente curiosidade e os infinitos porquês.

Como quem tem a confiança que só a audácia do tempo pode dar, ela dizia:

– Vou tomar banho, me avise assim que ela erguer, okay?
– Mas, e se…
– Pode parar, pode parar, quantas vezes já fizemos isso juntas? Oh menina, uma das grandes lições da vida é aprender a confiar.

Naquela época, eu jamais desconfiava que minha avó falava de experiências ancestrais.

De olhos vidrados no copo americano com água, os segundos eram eternos até aquele pequeno pedaço de massa do pão vir à tona.

Hoje entendo que aqueles momentos eram muito mais que delícias na mesa e mãos na massa, eram sobre deixar-se elevar, eram sobre tornar-se leve.


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4 comentários

  1. Lindo texto. Conciso, repleto de suspense, emoção e sentimentos.

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