Que bomba?

Hoje foi dia de retorno no psquiatria, isso mesmo médico de cabeça, de neurônios, de saúde mental.

Dessa vez foi um pouco diferente do que das outras, a sala de espera estava lotada de alemães e eles(as) tentavam puxar papo comigo.

Não hesitei e nem fiquei com medo da situação, mas também não consegui conversar, por falta de vocabulário e pela velocidade da fala dos nativos.

O bom foi que ao menos entendi o contexto que foi desde cirurgia da próstata até ao direito dos pacientes no transporte público.

Frau Leao, lá fui eu. Definitivamente eles não conseguem pronunciar o nosso “ã”.

A primeira pergunta que ele me fez foi:

– “A senhora viu o que aconteceu com o banco?”

– Vi sim.

– E isso não te assustou?

– Claro que sim, mas isso aconteceu também no banco ali da minha cidade no mês passado. E no Brasil acontece sempre.

Ele se referia à um dos bancos mais conhecidos daqui, que fica ao lado do seu consultório. Banco que estava interditado, com os vidros completamente estourados por bombas, arrombamento e sei lá mais o que aprontaram por lá.

Dessa vez fui eu quem vi o medo nos olhos do doutor…

Perguntei:

– Isso aconteceu com frequência na Alemanha?

– Claro que não, isso tem sido de alguns anos para cá.

Para o bom entender o pingo é a letra… Quis mudar de assunto afinal também sou estrangeira. Confesso que o que mais temo aqui é o nacionalismo que está voltando com força.

– Então, eu viajei de férias e acabou um dos antidepressivos há cinco dias.

Falei isso com uma vergonha absoluta porque essa é a segunda vez que isso acontece.

– Mas como está se sentindo bem?
– Sim.
– Então continue sem aquele (base serotonina), talvez ele foi necessário só no inverno. Vamos tentar. E do mais?

– Tudo bem, com altos e baixos, mas isso é a vida. A terapia tem me ajudado muito à me colocar no lugar. Tenho energia para fazer as coisas e isso é ótimo.

Aí eu já esperava as duas perguntas rotineiras:

  • Como vai a vida com sua família?
    – Quais seus planos para o futuro?

Após ele anotar as respostas no computador e me entregar a receita do outro antidepressivo (base dopamina), veio tudo o que eu queria ouvir, volte daqui 3 meses. Falo isso porque cada vez mais se estende o prazo das consultas, isso significa que estou no caminho do desmame (tirar os remédios), acredito, pois, quando não estou bem as consultas são quinzenais.

– Okay doutor, até mais.
– Se cuide.
– Se cuide também (foi a primeira vez que falei isso para ele).

É isso minha gente, a vida é interpretar os sinais das bombas que chegam para nós.


Flores cantam Poesias 🏵fotografias e poemas

e-book por Cristileine Leão


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16 comentários

  1. Ontem tb aconteceu o mesmo com um banco em Antuérpia. Até agora só sabem q a placa do carro era da Holanda.
    E tb queixam-se do mesmo.

  2. Torço por você como se fosse alguém com quem convivo aqui do lado… acompanha-te nos escritos e no sucesso do tratamento. Paz e Bem!

  3. É parece que não há como fugir do inferno, vou tentar fazer o que não queria um pacto com o diabo e me tornarei exterminador de terrorista, que por sinal um hoje bem que sorriu pra mim e falou algo na linguagem israelita e eu pensando que fossem apenas os africanos do boko haram.😭😭😭

  4. Fausto de Goethe, risos… me pergunto quando o ser humano vai trabalhar pela a raça humana e não por essa ou aquela nacionalidade… Há muitos estereótipos e por vezes nem sabemos como lidar, por isso acabamos nos fechando em guetos…. algumas vezes sinto a discriminação também, outro dia num café com uma amiga um senhor disse que queria pular no meu decote e arrancar meu sutiã. Não sei se foi bom ou ruim ela traduzir isso pra mim. Só que depois me senti muito mal, dúvido que falaria isso para uma alemã. Muito maior que o meu decote, que era só um pequeno V nas costas, foi o preconceito dele por eu ser mulher, morena e brasileira…

  5. Normal esse preconceito, não deveria haver mas há e não somente conosco. No meu caso foi exatamente no momento em que citaram meu sobrenome em voz alta, Eljabel, a israelita no mínimo por ter raiva de povos árabes, nem imaginou que eu era brasileiro e deve ter falado horrores o que me fez verificar naquele sorriso debochado a ignorância que independe de nacionalidade, RSS😂

  6. Texto maravilhoso,os detalhes da sua ida ao médico sem querer querendo falam de fragilidades corriqueiras de todos nós,fazendo psicanálise ou não .
    Obrigada por ele

  7. Estamos aqui, vulneráveis a bombas, preconceitos, doenças… Mas também temos a oportunidade de receber boas notícias, de nos recuperar, de retomar a vida, reconstruir. P.S.: Muito bom quando as consultas se espaçam, né? 🙂

  8. Certeza Bia, esses dias ouvi algo marcante: se estamos vendo tantas trevas é porque há luz… Quanto aos antidepressivos, fica aquele mix de sentimentos, vontade de se libertar e medo de ficar sem…

  9. Recentemente recebi uma mensagem de um youtuber que eu admiro muito sobre um vídeo meu. Ele disse que adorou minha análise e que uma parte chamou sua atenção foi como eu mostrei que cada filme uma pessoa, cada pessoa um filme, ou seja, cada um pode interpretar a obra de sua própria maneira de acordo com suas experiências pessoais. E podemos trazer essa visão para um tratamento de saúde mental. Cada doença uma pessoa, cada pessoa uma doença. Cada pessoa um tratamento, cada tratamento uma pessoa. Pois são muitas as variáveis. E também os conflitos. Seu mix de sentimentos é só seu. Outras pessoas podem sentir algo parecido. Mas só você sente exatamente dessa forma, e seu tratamento seguirá o seu tempo próprio. Por isso que a gente tem que ir experimentando, testando, mudando. Por isso terapia é essencial, para se conhecer, para saber aquilo que é só seu. E, sabe, eu acho de verdade que você encontrará o seu tempo e seu método, e que ficará muito bem!

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