Sorriso negro.

Os dentes

Brancos, sujos, tortos

Tão precisos e preciosos quanto nossas impressões digitais/

Neles têm um quê de
Genética, cultura, estética
Indícios da condição social
e saúde de um povo/

Abra a boca
E te direi quem és/

Seus dentes não sei
Os meus frontais são largos
Ligeiramente separados
Como os da minha mãe/

Hoje no dentista
Vi meus dentes
Na boca do meu filho/

Nessa idade eu também sentava
Na cadeira odontológica mas em uma escola pública no interiorzão
Minhas amálgamas não negam/

Não sei se existia dentistas
Quando minha mãe era criança
Ainda que sim
A dureza de sua história não lhe permitiria ir/

Ainda assim
Seu vão nas arcadas
Estão aqui na minha frente
Seja na limpeza, na mordida ou no sorriso/

Meu sorriso é negro
Nem por isso é mais branco ou mais forte do que o seu

Isso são os contrastes que nos impuseram/

Já se foi o tempo em que se escolhiam os escravos pelos dentes
Veio a escovação, fio dental e antissépticos…

Ainda bem que existem tratamentos
Estou falando
Dos dentários/

Roda o tempo

Agora a moda é escova elétrica.

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4 comentários

  1. Acho foda essas associações temporais. Gosto da estética dos teus textos, trazem uma reflexão e um modular muito interessantes.

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