A casa.

A casa da tia Lurdes era muito grande. Tinha um quintal de terra batido cercado de tela de arame que separava a casa dos animais. De manhã sempre tinha leite fresco, vindo da vaca mesmo, não da caixa longa vida. Tia Lurdes separava a nata para fazer biscoitos e manteiga para a criançada. Enquanto isso corriamos no quintal, espaço vivo para imaginação.

Os dias eram ativos. Eu sempre passava na capelinha perto do coqueiral, acendia uma vela, e agradecia por estar ali. Engraçado, não faço isso faz tempo… Hoje em dia, o leite e a fé estão cada vez mais embalados para o consumo. E nós passivos à falta de tempo.

Entre a casa grande e o riacho de baixo tinha um caminho para chegar ao pomar. Esconderijo das travessuras.

Por ali também viviam porcos e galinhas, ignorava seus odores característico para admirar com que formosura o rosa se misturava com a lama; o ovo sendo chocado; os restos das nossas comidas sendo reaproveitados. Só não gostava de ver como os bichos vinham parar nas panelas.

Ficava horas divagando como somos interligados, eu, o porco, a panela. “Vamos minha gente, enquanto brilha o sol, o dia está lindo“. É mesmo, vamos lá, nas noites reinava a as lamparinas e os pirilampos.

Descia da mureta com a pressa infinita das crianças, corria querendo segurar cada momento. Por vezes arrancava o tampão do dedão do pé. Doia, a tia sempre tinha uma erva em mãos, e eu sempre acreditava em suas rezas.

Enquanto ali era aquela estrepolia, gente entrando e saindo, trator barulhento, rédeas esparramadas no celeiro, comida de fogão à lenha, horta e minhocas rolando na terra. Na casa grande reinava o silêncio e a arrumação. Passava por lá e ficava a espiar com receio, não de ser descoberta, mas de que fosse assombrada. Era um lugar bonito sim, mas destoava da vida que pulsava na casa caiada de branco da tia.

O refúgio secreto para meus dias de alento, e de desalento, ficava debaixo de uma frondosa árvore de seriguela. Ela era uma das muitas frutíferas que nos acenavam no palco de brincadeiras.

Na chuva, no vento, no sol, sozinha ou acompanhada. Sabor de infância ninguém lhe tira.

Depois de saciada, além da barriga, olhava para o relógio do sol que sinalizava a hora de voltar para a cidade. Fazia da minha camiseta um avental, enchia de seriguela tentando eternizar o sabor da terra.

A dona vendeu o sítio, tia Lurdes veio morar perto de mim, cresci. Mas, aqui na cidade, quem corre são os adultos, num quintal cheio de imagem e de ação, mas sem refúgio.

Vamos minha gente enquanto brilha o sol”. A tia mudou da Terra ontem.

A casa da tia Lurdes continua a ser muito grande.

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11 comentários

  1. Visitei recentemente, a casa que era de meus avós paternos, no interior de Minas, num povoado isolado dos grandes centros… morei lá por três anos, na adolescência…tinha tudo isto que você descreveu neste tom saudoso…a casa deles está em ruínas…fiquei mais triste do que saudoso…ainda não consegui escrever sobre…falta de tempo…também…não quero desagradar meus tios e pai…

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  2. Nada ficou no lugar Estevam, é bem estranho passar por lá e não ver mais o que nos animava. O que ficou, ficou registrada na memória e nas relações. A vida segue seu processo. Falta de tempo, imagino mesmo, a rotina sendo adaptada com o bebê. Vamos que vamos. Abraços.

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  3. Parafraseando meus poetas preferidos, diria: “Ah infância na minha terra querida, nos tempos que não voltam mais. Pois lá na minha terra tem Palmeiras, onde canta o sabiá, e as aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá. Agora só me resta ir embora pra Pasárgada, seja lá onde for. Pois hoje sei que todo poeta finge que é dor a dor quê deveras sente. E o pulso ainda pulsa naqueles que seguem contra o vento, sem lenço nem documento. O boêmio voltou, mas saiu daqui tão contente, por que será que ele quer voltar… Saudades

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