A poeira na nata.

Quem disse que nata não tem poeira?

Certo dia fui passear
No leite do microondas
Fantástico, se não fosse sinistro
Lá tudo borbulha
Parece o vida ápice da vida
O lugar que todos almejam estar/

Quando o botão do liga é acionado
Todas as moléculas parecem únicas
No som da ebulição
Tudo começa devagar
Você vai entrando naquela dança
E o calor não pára de rolar/

De repente se escuta a primeira
Bolha explodindo
Mas há tantas outras aqui
Estou bem protegido, ignoro o perigo
Na verdade
Nem sei como sair daqui
Não sou leite/

O meu amigo sumiu
Não o reconheço mais em nada
Não, não acredito que ele explodiu
Reconheceria sua voz
Vou continuar à procurá-lo
Mas já não enxergo mais
Tanta brancura ofusca a visão/

As ondas eletromagnéticas
Refletem cada vez mais
Na parede metálica
Desse micro mundo
Sinto minha água secando
Jamais pensei em morrer assim
Cozido em vida/

Ninguém percebe
O cozimento começa por dentro
Mas só veem a superfície
O leite acha que isso é vida
Será?
Como vim parar aqui?

Grades na porta e paredes
Impedem o vazamento
Das ondas microondas
Agora vejo muito leite derramado
Por que não explodo de vez?

Insuportável magneto
É o que dá acreditar em publicidade
Sua refeição num apertar de botão
Ainda sim há gorduras sorridentes
Proteínas indecisas e cálcio falso/

Pronto, desligado
Sobrou
A poeira na nata.

Este trabalho está licenciado uma Licença

Creative Commons

Atribuição 4.0 Internacional

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