Voz que nina a humanidade.

O primeiro tapa na cara que recebeu foi aos treze anos, por manifestar sua indignação, sua tia foi parar no hospital por causa de um coquetel de remédios tomado por não suportar a pressão psicológica do tio.

Cala boca pirralha, você não entende de nada. Falou rangendo os dentes.

A mão era forte, áspera e começava apresentar os primeiros sinais de ruga. Que rumo foi tomar, essa mão que era para afagar?

Dali para frente se calou, mas continuou observando os movimentos bruscos daquela mão que se levantava sobre outro rosto quase que diariamente.

São as faces do desgosto. Também via aquela mão julgadora apontando para os outros na rua. Dita e dura mão.

Entendendo de marcas, cresceu. Foi descobrir que o mundo com sua mão paterna estapeia quem tem seios e quer falar, com seus dedos longos e a palma da mão muscular, diz o quanto devemos ganhar ou perder, através dos salários, da música vulgar, das roupas que devemos usar, das imposições familiar.

Falo de mulher, falo de progenitora, falo de ser feminino, instinto cada vez mais extinto.

Não temos inveja do falo, nem queremos com ele disputar. Já temos uma descarga hormonal suficiente para nos preocupar.

Só queremos que seja quem for, tenha capacidade para escutar, sem bater, sem ofender, sem diminuir. Porque na realidade todos sabemos, essa voz nunca irá calar.

Voz que nina a humanidade, aceite esse colo sem medo, nenhum corpo é brinquedo que se usa e joga pela sacada do quarto andar.

A tia continua com o tio. A menina agora mulher, nunca mais tomou outro tapa na cara. Talvez porque as duas se perderam no caminho vendo outras podas. Espero que vejam o rebrotamento.

Algumas flores não viram:

Hoje vou ficar solteira“, disse Tatiane Spitzner na noite em que morreu. (notícia do site UOL, 09.08.2018)

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A G. do blog Agridoce me lembrou que estamos no Agosto Lilás, mês de prevenção à violência doméstica.

Sugestões de leitura para compreender o papel feminino através da mitologia e dos contos populares:

  • Mulheres que Correm com os Lobos, Clarissa Pinkola Estés.
  • As Deusas e a Mulher, Jean Shinoda Bolen.
  • Complexo de Cindera, Colette Dowling. (Indicação da G.)

Vamos falar mulherada!

Este trabalho está licenciado uma Licença

Creative Commons

Atribuição 4.0 Internacional

10 comentários

  1. Leio seu texto com Emmanuel no colo… estou a niná-lo, enquanto a Nina, minha esposa, executa afazeres de casa e ajuda Sofia nos deveres da escola… você sempre nos atualiza com seus escritos que descrevem a alma humana…

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  2. “Só queremos que seja quem for, tenha capacidade para escutar, sem bater, sem ofender, sem diminuir. Porque na realidade todos sabemos, essa voz nunca irá calar.”
    Chorei! Chorei as lágrimas que a Tatiane não pode mais chorar, talvez porque eu esteja na minha semana mais sensível do mês, talvez porque não consiga ficar indiferente em relação à violência. Talvez…
    Abraços,
    G.

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  3. O colo e os embalos têm poder de livrar o mundo dessa violência danada. Pena que algumas mãos vão para outros cantos.
    No caso estou falando da opressão histórica vivida pelo feminino, mas essa mão massacrante estapeia por muitos outros lados e pessoas.
    Antes do sexo, da cor, da condição social… somos gente, precisamos de dignidade, colo para embalar (de acalento) não de embalar (de empacotar).
    Nesses casos, os manifestos são intenso Estevam, agradeço por você ler e comentar.

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  4. Acho q o feminicidio exige ações para já, mas tb ações a longo prazo. Tudo inicia na educação em casa, na escola.
    Algumas de nós temos culpa quando, por exemplo, aceita votar num candidato que discrimina abertamente as mulheres.
    Não existe isso de ser diferente o salário para homem e mulher na iniciativa privada sendo a mesma função, como ele disse ainda ontem no debate. Não se pode “lavar as mãos”!

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  5. A violência não tem sexo, meninos e meninas são criados meio à ela e por muitas vezes chegam a acreditar que isso é normal. Nesse livro da As Deusas e a Mulher, a autora usa de argumentos psicológicos para explicar as diferentes personalidades e o porquê o machismo e a submissão fazem parte até nas mulheres… Já do outro livro, lembrei da história da pele de foca, por mais que tentem nos desconfigurar, o canto do mar refaz a pele da alma, muito lindo!
    Fazemos parte de um processo de um longo trabalho conscientizador… Vamos lá!

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  6. Excelente texto-reflexão, Cris!!
    “Voz que nina a humanidade, aceite esse colo sem medo, nenhum corpo é brinquedo que se usa e joga pela sacada do quarto andar.”
    Que palavras!!!

    E amei a lista de leitura. Já li Mulheres que correm com os lobos (várias vezes!) e As deusas e a mulher! 🙂

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