A saga do celular.

Venho numa queda de humor desde que morreu meu cachorro, meu sogro, e a ida no Brasil em plena greve dos caminhoneiros quando presenciei a morte da esperança do meu povo. Aliás, greve essa que soube que está servindo de justificativa para o “aumento” dos presos dos produtos. Se liga Brasil!

Naquela ocasião, meu celular quebrou no dispositivo de carregamento. Nele estava registrado metade da minha vida: textos, fotos, contatos, agenda, etc. Afinal sou uma humana moderna com essa pequena extensão do corpo.

Tentei mandar consertar no Brasil, mas não teria tempo hábil. Assim, tive que me readaptar ao notebook o que seria mais fácil se o teclado fosse em português, mas não era.

Pouco tempo depois, minha família me deu de presente outro celular como presente de aniversário adiantado. Mais uma adaptação, acontece que sou daquelas pessoas que insiste em consertar o velho, não se conforma com a descartabilidade atual e procura problemas com a própria mão, risos.

A sagacidade humana

Levei o celular para arrumar aqui perto de casa, como é uma cidade pequena e cara, não deixei lá. Então, lembrei da rua que eu estudava em Frankfurt, a qual apelidei de 25 de março, fui lá, serviço pronto em duas horas e pela metade do preço.

É aqui mesmo, fui mordida pela avidez e excesso de confiança. Gente, deixei o celular lá sem pegar nenhum comprovante… Se liga Cristileine!

Voltei e a loja fechada, fui no outro dia, volte amanhã não tivemos tempo de arrumar, no outro dia a loja fechada, final de semana também, liguei e liguei e ninguém atendia.

Na segunda-feira retornaram a ligação para ir buscar às 17h, cancelei a aula de música das crianças e fui, no caminho outra ligação, busque amanhã às 15h. Na terça fechado…

Engolindo palavras não ditas

Nessa já tinha sofrido tudo o que podia sofrer no fim de semana, então quando fui lá, peguei meu ebook encostei na porta da loja e fiquei esperando. Logo chegou meu marido.

Eu fiquei brava com ele porque estava perdendo serviço à toa, nós dois na porta da loja sem saber falar com qualquer um que passava na rua para pedir dicas do que fazer.

Naquela onda de negatividade ampliada pela depressão me sentia a pessoa mais burra, frágil e dependente do mundo.

Antenas intuitivas ligadas

Uma hora depois – bingo – meu marido lembrou de ver o nome do dono da loja na caixa de Correios. Sim aqui somos obrigados a colocar o nome se quisermos receber correspondências.

Numa pesquisa rápida descobri que o proprietário tinham outra loja à 600 metros dali. Para lá que fomos.

No meio do caminho tinha…

Escutamos alguém nos chamar, era um pai com uma criança de colo. Falou, falou, falou, entendi 20%, sendo 10% dos meus estudos de alemão, os outros dez da comunicação não verbal.

Você fala inglês? Detesto fazer essa pergunta por dois motivos, um que me sinto na obrigação de falar a língua deles já que vivo aqui, outro porque geralmente eles falam bem inglês e esperam a mesma desenvoltura de mim.

O homem explicou que estava na mesma situação de enrolação e que não tinha pego o comprovante de entrega também.

Caso de polícia

Enfim, respirei, eu não fui a única quem não pegou comprovante, voltei para a pele da humanidade. Depressivos se cobram demais.

Como típico cidadão das terras germânicas, ele nos explicou que o melhor jeito seria ir na polícia, que aqui eles partem do pressuposto que se uma loja funciona numa avenida pública e movimentada ela deve ser registrada, segura e confiável para se frequentar…

Enfim, trocamos telefones, ele não queria ir na polícia no momento com uma criança no colo, nós fomos para a outra loja.

Pegamos o cara de surpresa, que desnorteado me deu o celular na mão. Agora o aparelho estava com o carregador e o vidro frontal quebrados. Ele disse que não tinha a peça pra reposição, e que o técnico viria em uma hora para conversar conosco. Mais uma? Resgatei meu aparelho e fui embora.

Lições aprendidas

  • Não ache porque você está num país de “primeiro mundo” que tudo vai ser diferente.
  • Nem sempre a linguagem funciona, vide o caso daquele cidadão, ele sabia da língua e das leis e estava na mesma situação.
  • Peguem o comprovante de entrega sempre em qualquer lugar do mundo.
  • O barato sai caro.

Mas, acima de tudo, a principal, não se deprecie quando estiver passando por uma crise depressiva, todos passam por problemas e soluções à todo momento. Lute até o fim contra a negatividade, ainda que saia quebrado, lute, no caminho sempre encontrará alguém para te ajudar. Aceite ajuda. Há muitos picaretas no mundo sim, e há muitas pessoas tentando vencer com dignidade.

Este trabalho está licenciado com uma Licença

Creative Commons –

Atribuição 4.0 Internacional

23 comentários

  1. Por isso achei importante esse relato. Apesar de achar que eles não eram alemães, estão autorizados à trabalhar aqui em centro público e movimentado. E é super complexa a burocracia aqui para se conseguir a liberação de qualquer coisa. Por exemplo, pra vc mudar de uma cidade/casa para a outra, vc precisa ir na subprefeitura se registrar, entregar cópia de seus documentos, etc. Pra vc trabalhar, seja qualquer função é obrigada uma autorização do governo, por isso que o serviço sem registro quase não há, a multa é alta. Pra você ter televisão ou cachorro em casa, também paga uma taxa mensal, isso mesmo que leu, e eles fiscalizam isso. Quando mudei pra cá muitos vídeos do YouTube não passavam por causa de direitos autorais, agora vem mudando…
    É o que sempre escutei, não é que eles são mais “certinhos”, é que eles têm leis fortes e funcionais pra sociedade andar.

    Enfim. a picaretagem está por todo lado, a dignidade também. Por isso é bom entender que isso tudo faz parte da humanidade, o que tem que ser combatido e acuado é o preconceito e a falta de respeito.

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  2. Muito boa tua reflexão e, olhe, que minha visão da Alemanha é ótima. Eles desenvolveram teorias brilhantes que nos auxiliam aqui no Brasil em matéria de Direito do Consumidor, mas casa de ferreiro, espeto de pau, não é mesmo? Obrigada por compartilhar conosco. Abraços, Cris.

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  3. Mas essa história não acabou, vou arrumar um jeito de avisar as autoridades alemãs do ocorrido. Afinal todos falam que somos o povo do jeitinho né? Não é justo passarem ilesos… Beijos querida, sempre bom ver você por aqui.

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  4. Cris, você faz muito bem em comunicá-los, acredito que as leis consumeristas alemãs são muito protetivas aos consumidores, digo-te isso por interesse acadêmico (sou advogada) e pesquiso nesta área. Beijos.

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  5. Atendo pessoas em processo de tratamento de depressão e ansiedade, síndrome do pânico quase todos os dias no meu trabalho. A maioria muito jovem. Adolescentes. Uma característica é muito comum…perfeccionismo. ‘Quase sempre acham que não tem o direito de falhar…’. É, minha amiga, como um perfeccionista em fase de superação…sugiro, dar-te o direito de falhar…não és a única, nem na Alemanha e muito menos no Brasil…nem na terra…nem na lua (kkkkk). Abraços.

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  6. Perguntei pq sofri um golpe aqui e por sorte foi pouco perdido, talvez menos que o seu, e tb foi um estrangeiro. Pronto, pode ter a nacionalidade daqui, não sei, mas tinha sotaque de fora.
    Em Portugal fomos enganados por casal de brasileiros para alugarmos um apartamento. Caímos na besteira de por serem brasileiros, depois se apresentaram como evangélicos, pareciam 2 anjos. Foi dureza tirá-los de lá. Enfim, desonestidade não tem nacionalidade, mas choca-nos um estrangeiro como nós ser desonesto, qdo somos honestos e tentanos ajudar. 😦

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  7. Acho bom dizermos desses empecilhos como forma de alerta. Esse é um conflito que nos acompanha, se confia é pq confia se não confia é porque não confia… Gostei do seu pensamento “desonestidade não tem nacionalidade”. Consegui um site online da polícia e fiz uma representação. Mudando de assunto, te procurei como Vai mãe, vai nas redes sociais e não achei. Boa semana 🙋🏽‍♀️

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