Caminhão de água fria.

Quem dirige?

No auge dos meus 40 anos foi a primeira vez que vi o Brasil quase parar. Outra sensação de temor assim, só me recordo da época da ditadura militar, quando eu era criança, e tínhamos de olhar de cabeça para baixo e só dizer sim senhor e não senhor.

Dessa vez foi uma expectativa se conseguiríamos chegar, ou não, da capital ao interior onde vivem nossas famílias. Alugamos um carro que foi entregue com um sexto do tanque. Afinal chegamos em plena greve dos caminhoneiros por redução no preço do combustível.

Seguimos numa rodovia majoritariamente vazia no estado mais industrial do país. Fizemos um pitstop em Ribeirão Preto onde conseguimos completar o tanque com álcool, claro que indo para a fila de madrugada nos raros postos que ainda funcionavam.

Na pequena cidade onde cresci, vi algo inimaginável: fazendeiros distribuindo produtos para não estragar. Claro que meu pai foi para a fila do leite, mas desistiu da espera nos primeiros dez minutos.

Os supermercados anunciavam a falta de gás, o povo estocando carvão pensando no churrasco e lembrando do fogão à lenha.

Meu tio que é caminhoneiro ficou levantando a bandeira do setor, e reclamando do cheiro de laranja podre exalado do caminhão.

– Por que não jogam isso fora tio?

– Oras bolas, do que você acha que é feito o suco de caixinha que vocês bebem? Acha que são frutas fresquinhas?

Eca, podia ter me poupado dessa informação.

Quando voltamos embora para a Alemanha, a situação já estava se normalizando, até encontramos combustível na luz do dia, com filas é claro.

A minha filha passou o caminho todo brincando de contar quantos caminhões ela via, foram mais de mil segundo ela.

Na internet vi um desses memes que dizia que o Brasil agora têm quatro poderes: o executivo o legislativo o judiciário e o caminhoneiro.

Esse bom humor, a flexibilidade, a prestatividade e os sabores do que se planta em terras brasileiras são incomparáveis. Como sinto saudade, que também é uma palavra só existe em nosso vocabulário.

Mas vamos e convenhamos, nossa realidade está em um dos pontos mais críticos da história, não é o primeiro e nem vai ser o último empecilho que estraga nosso suco.

O governo federal liberou desconto nos preços dos combustíveis, mas já avisou que o valor será repassado para outro setor. Sugiro para eles que cortem o auxílio paletó e reduzam drasticamente à verba para os gabinetes. Que tal?

Políticas à parte, o que mais me agrediu foi o desperdício e a memória curta dos brasileiros. Presenciei muitas donas de casa usando a mangueira como vassoura. Eu também sou dona de casa e sei que dá pra limpar diferente. Essa situação foi um caminhão de água fria na minha cabeça.

Nada mudou após a crise hidráulica de 2014 onde a estiagem atingiu o “volume útil e o volume morto” do sistema da Cantareira/SP. Onde por todo canto do país vimos lagos e torneira secarem, animais morrerem e faltar comida no prato.

Também lembrando das décadas e décadas de desertificação, esquecimento e revelia no Nordeste brasileiro.

Fica a advertência para todos, a fim de que não caia um caminhão de combustível em nossas mentes, pois, situações para acender o fósforo não hão de faltar.

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9 comentários

  1. Nessa época eu era criança e não me lembro de nada, devia ter no máximo três anos, mas historicamente sei que foi uma época bem tensa no nosso cenário econômico… Mas hoje, Cris, tá complicado mesmo e nos sentimos impotentes, como sempre! Abraços.

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  2. Viestes num período complicado ao Brasil, mas, com raras exceções, o complicado é a regra para nós e não a exceção….de Sarney a Temer…sempre tem algo a temer neste meio…no auge da paralisação escrevi ‘no caminho…os caminhoneiros. Não sei se lestes, se não…segue o link…abraço fraterno Cris.
    estevamweb.wordpress.com/2018/05/25/no-caminho-os-caminhoneiros/

    Curtido por 1 pessoa

  3. Triste, muito triste.
    Eu admito que tenho muito medo do futuro, pra onde vai o nosso país. E tenho me sentido muito desesperançosa. :/
    E brasileiro tem memória curtíssima…

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