Fábula IV – Do isopor.

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Isopor

Ele era um pedaço de isopor velho levado pelo vento. Mesmo sendo leve, resistente e impermeável, ele não perdoava os erros dos outros, então voava para disfarçar o sofrimento próprio e alheio. Ele não parava nas mãos de ninguém porque as sujava com as marcas do julgamento.

O isopor voou e voou por léguas, até trombar com a porta de uma igreja e se despedaçar em pedaços mil. O padre assustado sentiu cheiro de pecado no ar, correu para a porta, que fica entre o céu e o inferno, e tentou reciclar o material perdido com toda a sua oratória, usou também incenso, vinho e até água benta.

Aos poucos o isopor foi se reconstruindo e tomou a sua forma fenomenal de isolante térmico e acústico, voltou a ser o voador, o dono da verdade.

Perspicaz e cismado como só era aquele poliestireno, logo se fez imponente e incontestável. Então, começou voar no confessionário e delatar tudo o que ouviu, e tudo o que não ouviu, enquanto estava contido por lá.

O sacerdote havia esquecido que não tinha a capacidade do isopor, pois, no isopor não se prolifera a criação de microorganismos. Já nos homens…

No topo, o isopor fez o padre lhe pedir perdão.

E assim termina uma estória, que nunca se fez, que não tem moral, que nunca ninguém contou.
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