A entrevista.

  • Qual sua profissão?
  • A qual estudei, ou, a prática?
  • Aquela que faz todo dia.
  • Dona de casa.
  • Porque está querendo essa vaga?
  • Acho que preencho requisitos.
  • Fale melhor dá sua prática
    Zelo conta? cuido da harmonia, organizo a desordem, alimento todo dia, planto flores para enfeitar o caminho, limpo discórdias, e muito mais.
  • O que lhe faz pensar que essa vaga é para você?
  • Se ela não for vocês vão perder. As habilidases que desenvolvi com a flexibilidade me deram poder de transformação e adaptação.
  • Fale e explique uma característica fraca sua.
  • Insegura, saio segurando tudo que encontro pela frente, nunca sei se vou dar conta, às vezes me supero, outras não.
  • Agora conte da forte.
  • Persistência, sou como um dente-de-leão, vou da flor ao vento, mas minha raiz é muito difícil de tirar.
  • Três fatos que mais marcaram sua vida?
  • Quando criança uma cirurgia que me limitava andar e socializar. Quando adulta as variadas mudanças, de Estado, de país; de estado civil e ser mãe. Agora a depressão.
  • Como assim? Tem depressão? Há quanto tempo?
  • Acho que desde quando nasci, a vida me espreme e eu digo estou aqui. Há mais ou menos um ano comecei o tratamento. Tomo sim uma pílula diária para regular o humor e faço terapia semanalmente para o autoconhecimento.
  • Toma algum outro remédio?
  • Sim, vários. Quando tenho alguma dor que não cura sozinha, ou que insiste em voltar de tempos em tempos, vou procurar o médico. No momento estou com esse para o cérebro, outro para a regulação sanguínea e outro quando a joanete ataca.
  • Mas que grandes problemas uma dona de casa pode ter?
  • Administração do lar, do tempo, dos filhos, escutar a agonia do marido, ser questionada da sua função social.
  • Mas a senhora não teria vontade de ter sua renda própria?
  • Claro que sim, por isso estou aqui.
  • O quanto a senhora pretende ganhar?
  • O suficiente para cobrir todo esse meu trabalho do lar, pois, alguém terá que fazer o que eu faço. Com mais um acréscimo para a boa convivência nos fins de semana.
  • Seja mais precisa?
  • Desculpe, não sei por quanto vendo meu tempo. Se eu for “a escolhida” analisarei a proposta com carinho para ver se encaixa no meu perfil.
  • A senhora me parece que tem muito prazer no que faz. Então qual o porquê se candidatou nessa vaga?
  • Sabe como é, vivo em sociedade, por mais que eu possa escolher algumas coisas, noutras é ela que escolhe para mim. Por hora, a sociedade diz: apenas é digno quem ganha.
  • Okay, me fale uma frase absurda.
  • Todo dia o passarinho teme por o pé no fio de eletricidade, mas faz de lá seu puleiro.
  • Muito obrigada por sua participação, entraremos em contato se passar para a próxima etapa.

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18 comentários

  1. Já não é segredo para ninguém de que sou um leitor assíduo e um apaixonado pela tua escrita Cristileine. Na entrevista, posso ler um texto recheado de bom humor com pitadas de sarcasmo ( se me permite a palavra) que mostra a verdade que permeia a vida das mulheres e suas famílias. É por estas e outras que reverencio minha mãe com toda minha gratidão… e aqui deixo meu respeito e admiração expressado na forma de um abraço carinhoso. Obrigado por compartilhar …beijo no coração!

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  2. Você ja foi sabatinada, fez dinamicas mil, foi ao mercado (de trabalho) e venceu, cansou, saiu, chorou e depois riu, enfrenta todo dia muitas jornadas (do trabalho, luta e descoberta), cai e levanta, canta, com seu conector de audio interestelar (vulgo headphone) vai até ali na galaxia vizinha, colhe umas palavras, traduz seus significados em forma de texto, enfeita, posta (quando nao deleta), corrige, refaz, se irrita, e o que mais me encanta, não perde o olhar e sorriso pelos quais sigo encantado (da lua, sereno e seus encantos), magia pura no escrever que se confunde com o ser, que refuta ser humano de tão humana que é

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  3. Bem isso…ou melhor…mal isso…a sociedade escolhe por nós… até quando somos nós que escolhemos…por isso, meus poemas são meus gritos de liberdade…brilhante como sempre…

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