Colorir o pé com joanete.

Eu tenho joanete, eu sei que a minha dor e o meu conforto dependem do tipo de sapato que uso e do terreno que piso.

Quando estou deitada no sofá com os pés para cima não lembro de nada disso, a não ser quando mexo o pé bruscamente, sinto um incômodo, então vejo aquela bola ossuda do lado do dedão do pé.

Movimento um pouco os dedos, escuto o estralar dos tendões e mudo de posição. Quando olho para o outro canto do pé, eu vejo um calo gigante formado das pisadas tortas que já dei. Engraçado os calos não doem.

Já as joanetes não tem cura. Minha mãe operou das joanetes, porém nada adiantou, a pelota brotou. Não sei se isso é genético ou se surgiu por causa da minha postura. Me falaram para usar uma palmilha protetora, mas acho que isso é um tratamento paliativo.

Descobri que eu tinha joanetes depois de ficar incomodada com uma bota de couro preta que usava para andar de moto com meu marido. Achava que o problema era da bota, por ser dura, até que eu percebi essa novidade apontando nos meus pés.

No Brasil nossos passeios de moto eram mais frequentes, tínhamos nossos familiares como rede de apoio com as crianças.

Até hoje me pergunto como essas joanetes foram latejar bem num momento de passeio quando os pés descansavam estando mais no guidão do que no chão. Sei lá.

Aqui na Alemanha meu marido continua no giro de moto nas horas livres quando o tempo está bom. Falo do tempo do céu e da Terra, trabalhar não é fácil para ninguém, quanto mais se dá, mais se cobra, e pagar cada centavo para estar no país de primeiro mundo é tarefa árdua. Brasileiros têm que mostrar o dobro do seu valor e carregar a estigma do jeitinho.

Meus amigos acham que agora sou uma madame européia, queria só que eles vissem meus pés nas tardes de domingo quando o marido está andando de moto e eu fico estralando as joanetes no sofá. Enquanto as crianças estão brincando ou brigando.

Não eu não sofro com isso, a semana que vem vou na Noite do Museu, eles não gostam de museu então provavelmente vou sozinha. Claro que vou pôr tênis porque já abandonei aquela bota preta faz tempo. Quanto aos saltos nunca fomos amigos.

Aqui já é Primavera, época de usar rasteirinhas, mas preciso pintar as unhas. Aqui é tudo faça você mesma ou pague uma fortuna pelo serviço, já montei guarda-roupa, troquei lustres e aprendi cortar meu cabelo. Voltarei com muitas experiências e habilidades. A Alemanha é conhecida por seus produtos de excelência e qualidade. Já na prestação de serviços deixam muito a desejar no quesito prestatividade.

Fui ao mercado comprar esmaltes para dar um trato nos pés, as atendentes do caixa são tão rápidas para passar a compra que o frasco voou direto para o carrinho e quase caiu no chão. Lembrei do filme Tempos Modernos, do Charles Chaplin, da produção em série…

Agora já me acostumei com esse tratamento, quero dizer: agilidade, mesmo porque o freguês de trás já está com a sacola aberta esperando para guardar suas compras que ainda nem foram registradas.

Tenho que ser ágil, nessa hora eu nem lembro que joanetes existem.

A vantagem é que aqui ninguém fica olhando para o seu pé reparando que você não trocou de esmalte. Eu acho que aqui as pessoas são mais livres na parte da vaidade, cada um anda do jeito que quer com menos cobrança social. Falo da vaidade de vestiário, maquiagens e afins. A vaidade deles fica na quantidade de livros e carro que tem em casa, e no grau de escolarização.

Mesmo assim eu gostaria de pintar as unhas, vou fazer quando tiver tempo e disposição. Não sei o porquê mas esses dois atributos nunca andam juntos na minha pessoa.

Com o pé colorido a joanete passa quase desapercebida. Espero que elas nunca mais inflamem, é uma dor terrível que nos põe a andar descalça, isso quando dá para andar.

No mês passado minha filha pegou um monte dos meus esmaltes e pintou uma capinha velha do meu celular. Quando fui ficar brava porque nem me perguntou se podia, ela argumentou que nunca uso esmaltes e eles já estavam velhos e endurecendo. Eu nem tinha percebido isso. Será que é assim que se formam as joanetes?

Fiquei quieta, não lembrei nem da moça do caixa e nem do esmalte novo. A capinha tomou vida nos meus pensamentos.

Mas do que eu estava falando mesmo?

Ah, lembrei, então, eu tenho depressão…

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  • A Noite do Museu já aconteceu, conforme postei dias atrás, escrevi esse texto posteriormente.
  • Até agora estou tentando entender como meu cérebro fez a ligação da joanete com a depressão 🤣 Mas tudo bem, nem tudo é para ser entendido 🙆🏽‍♀️ Se você voltar a leitura e substituir uma palavra pela outra, vai perceber o que estou falando.

  • Ainda não consegui pintar as unhas dos pés, mas comprei umas unhas autocolantes para as mãos. Estou caminhando 🙋🏽‍♀️

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18 comentários

  1. Joanete não cura, mas tem tratamento. Fisioterapia ajuda bastante.
    Minha mãe tem e o médico já encaminhou ela pra fisio (que ela nunca foi haha).
    Bem interessante a troca das palavras.
    E concordo com a Alda: “Qualquer doença que nos acomete tem algo a ver com excessiva atenção que damos a algumas coisas ou excesso de atenção. O difícil é identificá-las.”

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  2. Adorei o texto!
    Minha vó tem umas joanetes assustadoras, morro de medo de ser hereditário =/. Justamente por isso aboli os saltos da minha vida e só uso sapatos ultra confortáveis. Mesmo assim, tenho “bunionettes”, do lado dos meus dedinhos do pé. E só de um lado! Vivia morrendo de vergonha, mas tenho uma amiga da mesma idade que tem umas joanetes absurdas, então liguei o “dane-se” e agora não tô nem aí 😀

    Quanto à liberdade de vestir o que quiser na Alemanha: a-do-ro. É um povo muito mais focado no interior do que na imagem, sem dúvida. Foi aqui que eu experimentei FKK pela primeira vez e hoje sou fã! Acho incrível como eles conseguem, naturalmente, separar a nudez do erotismo. Para nós, brasileir@s, há sempre uma adaptação envolvida.

    Curtido por 1 pessoa

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