Pra você tiro o chapéu.

Ainda falando sobre o querer, percebi que ele mora no mundo do desejo e o desejo não é só desejar, nascemos desejantes de leite e de ar, alimento, abrigo e amigos.

Todo desejo seja ele por prazer e/ou necessidade se transforma num querer. Quero logo existo, quero logo desisto.

Esse tal desejo mora na casa do chapéu. Observei que muitos usam chapéu de enfeite, outros para se proteger do sol e a maioria nem usa chapéu.

Não adianta rejeitar o desejo porque ele respira e se alimenta de você.

Andei muito tempo procurando meu chapéu preferido, uns me serviram por muito tempo, então cresci e eles não serviam mais; outros logo perderam a forma; lembro daquele que odiei mas ainda assim usei, eu usei e fui usada; hoje faço parte da turma sem chapéu, mas quem já usou o belo, digo o chapéu, jamais esquece. Sempre falta algo em cima.

O fato é que cansei de procurar chapéu, cheguei a ponto do desejo por ele morrer, mas descobri que a arte da chapelaria renasce, nunca tem fim.

Um viva ao querer que põe o chapéu na cachola!

Fico pensando no monte de bocas desejantes que eu encontro todos os dias nas ruas, elas não falam seu querer, elas exageram no seu querer, elas não sabem o seu querer, elas reclamam “não fui eu quem quis assim.”

O fato é que o desejo te deseja do primeiro ao último respirar.

Também acho que o domínio do desejo, o famoso equilíbrio, é um querer completamente infundado, se o desejo mora na casa do chapéu nem a ciência e nem a religião vão lhe dominar.

Ainda assim precisamos de regras, formas e formatos, para nos adaptamos nesse mundão, para nós sentirmos adequados no caos.

Pais de crianças pequenas sabem que elas perdem chapéus facilmente. Duro é ver um jovem pisar no próprio chapéu, pior ainda ver um idoso com o chapéu para cima nas esquinas da vida.

Eu já sou adulta, e o que esperam dos adultos? Que tenham todo o saber, que domine a arte da chapelaria e que saibam produzir cada vez mais, sem perder energia. Que sirvam de exemplo e que acima de tudo não abandonem o chapéu. Pensando bem, os adultos carregam o estigma do chapéu dourado…

Os animais não usam chapéu, exceto o homem, onde será que eles colocam suas inquietações?

Tudo o que eu escrevo são divagações diante da moleira da Terra, se você está lendo é porque tem uma cabeça para colocar o chapéu, ou não, sua decisão.

Antigamente só os homens podiam usar chapéu, hoje tem tanto chapéu de madame por aqui!

Bom mesmo é ter á cabeça livre. Mas não, não somos livres, até que podemos fazer bastantes escolhas, mas, a cabeça maior é maior que a moleira da Terra.

E quando você se for, algo ou alguém vai ficar por aqui desejando você, pode crer.

Seja qual for o modelo de chapéu que usamos chamar de eu: panama, mexicano, cowboy, fedora, coco, floppy, clochê, boina, palha, mágico, bruxa, chef, aviador, cangaceiro, policial, duende, marinheiro, fada… um dia eles todos caem e a vida continua em moda.

Realmente temos que tirar o chapéu para a vida, e colocar diante dela.

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13 comentários

  1. Baita texto… de quebrar a cabeça, um quebra-cabeça feito de todo tipo de chapéu… parabéns!

    Tirando meu chapéu, quero deixar meu olhar registrado:
    Possivelmente não temos o “domínio do desejo”, já que ele é uma força infindável… mas o tal “equilíbrio” é um estado de ser, onde pode-se discernir os “desejos/aversões” da “verdadeira vontade”, vontade que reconhece o que é essencial, saudável em nós e para todos nós.
    Menos atenção aos desejos (labirinto mental), mais atenção a vontade (vazio essencial), vontade de ser aquele que já é: livre…

    Enfim, escolher fluir em sintonia com o fluxo…

    Um abraço!

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  2. Oi, Cris!
    Tiro o Chapéu pra você. (Com, o sem desejo, ou preferência)
    No meu labirinto mental, dependendo do clima uso o chapéu. Mas o desejo continua no labirinto mental depende da temperatura do coração.
    Axé!

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  3. Não temos domínio de quase nada, apesar de sentirmos o contrário.

    Quanto ao equilíbrio você me pegou, quase não publiquei esse texto por causa dessa parte… mas têm vezes que o texto fala mais forte que eu. Equilíbrio é o que procuramos, porém, para tentar chegar perto dele temos que não se entregar à força do peso e nem ao flutuar da leveza…

    Vou refletir muito nessas suas palavras sobre o desejo e a vontade, nunca tinha pensado por esse ângulo.

    Obrigada por sempre acrescentar.

    Super abraço, Cris.

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  4. Pois é… domínio é uma palavra difícil de se aplicar.

    Sim… o fluxo de criatividade é mais forte e é essencial sermos espontâneos… mesmo na dúvida, é transformador arriscar-se para depois se perceber.

    Equilíbrio é difícil definir e de se “ter domínio”(?)… é algo entre lá e cá, nada fora, dentro de tudo… a ponte no deserto, travessia no aberto, caminho do meio. (rs)

    Sei que é meio abstrato a diferença entre “desejo e vontade”. É mais ou menos assim, “o desejo vem do Ego”, “a vontade vem através do Self”.
    Vou ver se encontro algo sobre para te indicar ou postar no blog.

    Grato pela preciosa troca.

    abrasOM!
    Adriano

    Curtido por 1 pessoa

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