Sobre a perda e o silêncio.

Céu em Frankfurt hoje.

Hoje estou muito triste. O texto abaixo não é meu. É “em memória“. Jovem, jornalista, linda…tirou a própria vida. Filha única da minha professora do colegial, à quem tenho muito afeto, a qual já citei aqui posteriormente em Ecos de gratidão. Primeira professora que me falou da Europa, quem iniciou meu pensamento crítico, quem fez da “história” mais do que os livros. Só isso que tenho que falar por agora. Do mais leiam e pensem, por favor, a saúde mental é assunto sério… precisamos falarMas, agora, estou sem voz.

“Eu tinha uns três anos quando fui a um velório pela primeira vez. Lembro-me de ficar sentada ao lado da minha prima, um ano mais velha, que também não entendia muito bem o que era morrer. Mas a tristeza contagia. Choramos um choro desconhecido, até desmotivado. Eu tinha nove anos e já sabia o que era morrer, quando – no segundo velório – perguntei à mãe se o buraco no teto, logo acima do corpo frio, servia para a alma ir embora. Dois anos mais tarde, a dor era insuportável quando o tio-avô, que me fazia brinquedos com latas e madeira, se foi de repente depois de um AVC. Um ano depois, vi um câncer matar devagar outro tio-avô. Dia após dia, uma senhora vestida de preto sugava um pouco da saúde dele. Eu tinha 12 anos e atendi ao telefonema do hospital, que informaria, segundos depois, a perda para minha mãe. O tempo passou e vi primos morrerem jovens, tios perderem lutas contra doenças severas, amigos indo embora sem dizer adeus.

E pouco a pouco, a morte – essa senhora da minha visão de criança – continua vagando com vestes pretas, levando parentes, amores e amigos. Perder dói. Perder causa revolta, porque sabemos que é um caminho sem volta.

Da tristeza à aceitação, leva tempo. A saudade não escolhe prazo. O luto não pode ser ignorado, mas enfrentado com tudo o que ele tem direito. Choro, arrependimentos, risos descontrolados quando as boas lembranças surgirem. Agora, digo adeus a um amigo que me apoiou quando mais precisei, sem julgamentos, sem acusações.

Gostaria de ter tido a oportunidade de dizer isso a ele, ainda em vida. Não tive e por isso a dor parece ser ainda maior.

Para alguns, eu falei demais. Para outros, silenciei. Negligenciei a amizade, dei voz ao amargor. Fui errada, quando era só para ser errante. Eu pequei o maior dos pecados e me calei quando deveria dizer ao amigo o quanto ele era – e é – importante em minha ainda breve história.

A saudade é sem vergonha… te faz chorar no meio de gente, rir do nada – enquanto eu caminho sozinha pela rua. Menina danada! No fundo, não sabe o poder que tem. A saudade é sem vergonha porque te põe bem no meio desses dias nublados. Na hora da perda, o abraço não dado, a mágoa não superada e a dor enraizada são as mais cruéis das companhias. E não há canção ou poesia que alivie uma alma abatida.

Em minha trincheira solitária, hoje, brindo à covardia do silêncio, do medo de ser mal interpretada, dos gritos que me repelem a presença. Hoje, no escuro de um quarto choroso, brindo às amizades desfeitas pelo rancor, pela morte que não escolhe dia. Brindo aos amores enrusgados, aos desafetos e ao ódio. Todos aí listados só têm a ganhar nesses dias nublados. Mas saibam, porém, que as almas e os corações partidos hão de aquietar-se. Vai levar tempo. Vai doer. Mas a vida, que apronta, também acalenta.

Quilião, meu amigo bagual, obrigada por ser sensível o suficiente para enxergar o que havia de bom em mim. Num período de escuridão, você encontrou, como sempre, um ângulo diferente do daqueles que só sabem olhar a Vida e o Outro por uma mesma perspectiva. Você mora no meu coração e me salvou, mesmo sem saber.”

“O Senhor está perto dos que têm o coração quebrantado e salva os de espírito abatido.” (Salmos 34:18)

Fonte: Sobre a perda e o Silêncio, publicado em 01/04/2015.

Assim ela se autodenominava:

caipira de Taiaçu. Jornalista por profissão. Escritora por pretensão. Impulsiva por coração. Dizem por aí que tem alma de artista, mas ela nem sabe o que isso significa. Gosta de sorvete e cheirar livros. Embora deteste multidões, ela adora gente. E acha que cada pessoa é um fabuloso mundo a ser descoberto. Nunca aprendeu a subir em árvores sem a ajuda de escadas. Ama os ipês… em especial, o amarelo. Apelidos? Bê, Beba ou pimentinha.

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12 comentários

  1. Nossa eterna mania de nos autoflagelar. Assim vamos aprendendo. Tenho remorsos com meu avô falecido. Eu era afilhada e primeira neta, como ele fazia questão de enfatizar orgulhoso. Fiquei anos sem vê-lo antes que ele fosse “levado “. Eu me consolo com a esperança de que onde ele está sabe melhor de nossas fraquezas e arrependimentos. Bjs

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  2. Muito Triste !! Infelizmente vivemos a era individualista, egoista. Onde cria-se modinhas virtuais do tipo “não sou obrigada” e generaliza-se . Dai a pessoa nao estende a mão , não empresta o ouvido, não cede um abraço…porque não é obrigada. Pois a época em que se fazia isso de bom agrado, ficou a muito tempo atras. Que Deus receba essa pessoas em seu infinito amor e que conforte o coração dessa mãe.

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  3. É tão triste! A solidão dos nossos tempos. A pessoa procura ajuda; o outro não compreende, não acolhe, julga. Então a pessoa se cala, se isola, e sofre. E a angústia vai tomando conta, o sofrimento vai ocupando os espaços. Falta compreensão, falta compaixão em nossos relacionamentos.

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  4. Bia, acontece que a depressão ronda e apronta e às vezes as pessoas nem tomam conhecimento disso… as doenças mentais não estão sendo tratadas socialmente com a seriedade merecida. Aí chega “a perda e o silêncio” o que de de fato nos deixa sem palavras…

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  5. A morte q até agora mais marcou foi da minha avó materna. Eu estava a segurar-lhe a mão qdo ela faleceu. Durante o velório, eu olhava p o rosto dela e ela parecia uma boneca. Passou uma criança com sua mãe à procura de outro velório. Ela olhou para minha avó e expressou em voz alta aquilo q estava em minha cabeça. Fiquei surpreendida. Voltar à casa foi difícil dormir. Eu estava pensando q deixamos a minha vó abandonada e sofria.
    E eu já era bem adulta, no início dos 30!

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  6. Posso imaginar… se for pensar ficou com uma boa imagem, pois, as bonecas sempre estão lá guardadas num canto da casa para quando queremos brincar. Elas escutam nossos segredos e provocam nosso sorriso… Crescemos, temos que deixar as bonecas, jamais a imaginação. 🙋🏽‍♀️ abraços de primavera.

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  7. Eu demorei alguns anos para conseguir me sentir bem novamente na época de Natal por que justamente alguns dias antes da data, um amigo meu, numa confraternização da empresa que trabalhava, morreu afogado (embriagado, tentou chegar o mais fundo possível da represa e não retornou). Um dia antes havia encontrado-o numa rua perto de casa (que leva a praça) e conversamos por alguns minutos (uns cinco, na verdade), nessa tarde conhecia sua mãe e irmã mas nova (que me ofereceu um pirulito) e dissemos um ao outro que depois nos veríamos, o vi dobrando a esquina e nunca mais o vi- eu não quis participar do velório, eu preferi manter na memória a imagem dele sorrindo para mim.
    Anos mais tarde, participei do velório da avô da minha ex-namorada. Uma senhora magnifica que demonstrava força apesar das circunstâncias incentivarem ao contrário. Ela adquiriu câncer pulmonar, sobrevivendo por quatro anos com a ajuda da quimioterapia e sua fé (não descarto isso). A dona Jordina é um exemplo para mim de força e fé.

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