Banalidade do mal.

Hannah Arendt foi uma jornalista e filósofa alemã responsável por cobrir o julgamento de um executor do nazismo. Hanna era judia, logo, todos imaginavam que a reportagem dela para o jornal The New York seria uma bomba que detonaria aquele homem, aquele sistema, aquela dor da comunidade judaica.

Ao contrário, Hannah afirmou que aquele homem era só um operador cumprindo ordens, que nem ao menos tinha a consciência para entender o que fazia. Em outras palavras um inconsequente inconsciente.

Assim, essa filósofa nos convidou a refletir sobre a banalidade do mal. Termo por ela criado, estudado e difundindo.

“Eichmann cometeu atrocidade não por causa do ódio contra a comunidade judaica, mas porque seguiu ordens irrefletidamente, eximindo-se de seus efeitos”, disse *Hannah Arendt.

Pergunto: Quantos de nós estamos agindo como Eichmann hoje? Quantos de nós presenciamos injustiças humanas e ficamos calados? Quantos de nós seguimos o mandar dos nossos senhores irrefletidamente?

Desculpe o incômodo, meu objetivo não é imputar sentimento de culpa, só quero dar voz aos ensinamentos que essa mulher nos deixou. O qual se faz tão atual nos dias de hoje. O mal está sendo enraizado, e tudo acontecendo como se fosse normal.

Pessoas ficam depressivas, tiram a própria vida e olham para eles como se fossem fracos.

Pessoas acordam, colocam o terno ou o uniforme padrão, vão para o serviço, voltam, encontram suas famílias, jantam, assistem jornal… Assim foi Eichmann.

No jornal sangue, corrupção, crise migratória, aquecimento global, etc. E nós como expectadores, consumidores que alimentam esses canais.

Não temos a alcunha de ser herói, mas podemos ser sim uma pessoa consciente dos nossos atos e omissões. Hannah nos ensinou a não se calar, não seguir a correnteza, não olhar só para os próprios interesses. Procurar por ética.

Como Arendt salientou em suas obras, todos somos passíveis a falhas de pensamentos e julgamentos. Nem por isso, o mal deixará de ser um horror. Por tais falhas humanas, os sistemas políticos opressivos tiram vantagens e usam pessoas do cotidiano, como eu e você, para aplicar seus atos viz. Qualquer semelhança com petralha e coxinha é pura coincidência. O angu é mais embaixo.

Sendo assim, fica o sinal de que cada um de nós precisamos analisar com pensamento crítico tanto a política quanto nossos atos, para não sermos mais um operador do horror.

Aos interessados sugiro que assistam o filme biográfico Hanna Arendt, filme de 2012 que ganhou vários prêmios na Alemanha. Ela mesma foi uma refugiada nos EUA, fugindo dos campos de concentração. Nessa reportagem investigativa acima citada ela descobre que judeus também colaboraram nas matanças. Hanna foi odiada, teve que se isolar, e chega se não vira spoiler.

  • Fonte: O Livro da Filosofia.

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10 comentários

  1. Não sou um, digamos, conhecedor de Hannah. Sou mais um admirador leitor…mas, posso dizer-lhe que conseguistes fazer uma boa síntese da noção de mal cunhada por ela na ideia de banalidade experimentada por ela mesma nos horrores nazistas. Parabéns. Caso tenha interesse, tem um artigo meu publicado na Revista Síntese de Filosofia sobre uma das principais faces de Lévinas. Consegues baixar em PDF. O título é: A relação ética como religião em Emmanuel Lévinas. http://faje.edu.br/periodicos/index.php/Sintese/article/view/932/1358
    Fraterno abraço.

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  2. Sim, já tive a oportunidade de ler sobre Hannah e digo que no meu modo de analisar, concordo com a circunstância da qual é descrita e a interpretação muito bem entendida por Hannah. Assim ainda continua e não há como mudar dependendo do “papel” ao qual nos dispomos a fazer, explico:
    Uma pessoa que é contratada para evitar que crianças ou pássaros desfrute de frutos de uma árvore dentro de uma propriedade particular, cumprirá fielmente por seu papel, por mais que entenda que animais não reconhecem propriedade e que crianças adoram o proibido.
    Esse tipo de comportamento é o que defino como máscara. Usamos sempre uma máscara por cima da nossa verdadeira identidade, pois é assim que nos tornamos sociáveis.
    Mas isso é um papo longo para poder explicar.😉👍

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  3. Tenho cá esse filme em DVD. E também uma das obras dela, a mais conhecida? As origens do Totalitarismo. Mas ainda não vi e não mi. Estão na lista.

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  4. Já assisti esse filme. E passei os olhos em sua obra durante a graduação em Filosofia. Não me aprofundei. Minhas impressões sobre o filme foram muito parecidas com as suas.
    Como tudo na vida, trago pro meu contexto as leituras e degustações que faço. Minha reflexão é essa mesma, que nas mínimas dobras do dia nos escondemos. Somos hipócritas, mas posamos de muito esclarecidos.
    O mal está tão enraizado em nosso meio que está ficando bem normal. Você veja o comportamento coletivo, por exemplo. Falta de ética e pequenos delitos ganham o rótulo de jeitinho brasileiro. Uma vergonha.
    Diariamente, questiono “algumas” atitudes. Mentir está muito natural, por exemplo…
    Ótimo post.
    Um abraço.

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  5. Procurei sobre Emmanuel Lévinas, percebi que ele falava bastante sobre o reconhecimento do papel do outro como formação de nós mesmos. Assim que possível vou ler seu texto para me inteirar mais. Obrigada por essa enriquecedora participação 🙋🏽‍♀️

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  6. Imagino que irá gostar. Já vi o filme duas vezes, baixei o livro A Condição Humana que também está na fila de espera da lista. Lol. Admiro a coragem dela. Um fato que chamou atenção é que era uma fumante inveterada, imagino que fosse ansiedade pura. Abraços 🙋🏽‍♀️

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  7. Primeiramente seja bem vinda Aline. Também não tenho profundidade nas obras dela, mas é uma biografia que nos convida a conhecê-la mais e mais. Quanto ao jeitinho brasileiro, você nem imagina como esse rótulo nos persegue por aqui… Ainda assim, acredito que nossas ações dá a resposta de quem somos. Obrigada por suas colocações. Abraços 🙋🏽‍♀️

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  8. Pois. O filme está na casa dos meus sogros. Já pedi emprestado, para um fim de semana que de para assistir :). E não me admira ela ser ansiosa, se tiver sido pois com o que ela viu do mundo e do ser humano…

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