Feitos de experiências únicas.

Na idade dela, eu estava numa cadeira de rodas, não por brincadeira mas por causa de cirurgias nas pernas. Hoje na comemoração do seu aniversário (com um pouco de atraso), quando vi essa cena acima muitas memórias vieram na minha cabeça.

  • Mãe como é difícil empurrar isso. Como você conseguia?

Não disse nada, porque sei que o mais difícil foi empurrar o que veio depois na vida, depois da infância/adolescência com tais privações, tanto de atividades físicas quanto sociais. Mas não vim aqui para falar disso…

Quero contar uma história que mais me marcou dessa época e fazer um grato elogio.

Senta que lá vem história

Acordei, não tinha como mover as pernas, tateei do meu lado e lá estava minha auxiliar, a cadeira de rodas manual que o fundo social me emprestou.

Nessa época eu já estava com os braços fortalecidos por ela, e me gabava de algumas manobras que havia aprendido com a prática diária. Até hoje acho que fui melhor motorista de cadeira de rodas do que de carros…

Mais um dia de escola, lá fui eu, no começo a minha presença foi um misto de estranhamento e euforia entre os parceiros de classe. Ou recebia olhares tortos, ou aquela ânsia de quererem me ajudar e servir de qualquer jeito.

Passado algum tempo, todos se acostumaram e virei carne de panela. Melhor assim, fazia questão de eu mesma me conduzir, assim sentia mais eficiência e independência.

Entretanto, isso nem sempre era possível, muitos podem nem observar, mas o que mais impedem a vida de um cadeirante são as barreiras arquitetônicas, leia-se escadas, buracos, degraus, rampas íngremes, etc. Nesses casos eu solicitava ajuda.

Certa vez fui com meus colegas de classe fazer uma pesquisa para um trabalho escolar na biblioteca pública, sim minha gente existiam pesquisas antes do Google, e digo mais, eram consultas em livro por livro com o auxílio da bibliotecária.

Lá estavamos entre livros, cochichos e aquelas risadinhas da faixa etária. Tudo ia bem, até que a bibliotecária caiu no chão, começou se debater, enrolar a língua e virar os olhos. Aí foi um salve quem puder.

Os então adolescentes viraram crianças rapidinho, saíram correndo praticamente passando um por cima do outro. Eu não poderia fazer o mesmo, além de ter que mirar a porta, se eu fosse rápido demais poderia cair num vão. E não teria como enfrentar aquela descida sozinha.

A biblioteca ficava numa estação de trem desativada. E eu estava entre um ataque de epilepsia, ou, a linha do trem.

Fiquei ali, sentindo a inutilidade de não poder ajudar, o medo e a aflição da cena. Sem entender o que estava acontecendo. Foi um daqueles momentos sem fim. Não sobrou um do nosso lado para contar a história.

Sorte que pediram ajuda, logo chegaram alguns adultos que cuidaram dela e me tiraram do local.

Sai de lá com um trabalho de doutorado na mente, cuja conclusão: no fundo é só a gente com a gente mesmo, depois dessa aceitação é que chega o socorro… somos feitos de experiências únicas.

Vamos ao elogio.

De uns anos para cá combinei que as comemorações de aniversários seriam com viagens, geralmente as escolhas das crianças são em parques de diversão. Como o frio é intenso no fim e começo de ano, a maioria dos parques são fechados.

Esse ano encontrei um parque coberto e aquecido na região de Sttugart/Alemanha. Porém, a grande e maravilhosa surpresa foi esse espaço feito exclusivamente para as crianças andarem com cadeiras de rodas. Ainda que num pequeno espaço, foi o primeiro que vi desse gênero.

Sei que em Frankfurt há um museu sensorial para se ter experiências como se fosse cego. Ainda não visitamos porque as instruções são por áudio em alemão, mas estou estudando, chego lá.

O mais envolvente de tudo no dia foi ver o interesse e a interação das crianças, tanto com as cadeiras de rodas, quanto com a pista preparada com rampas, terrenos de diversos tipos, barreiras de proteção.

Por minutos aquelas crianças experimentaram outro mundo. Sentiram a realidade dos cadeirantes. Desmistificaram esse instrumento de rodas que dá mobilidade e autonomia.

Imagino que algo mudou na consciência delas, pois eu quando vi e usei pela primeira vez uma cadeira de rodas, fiquei muito assustada. Achava que os médicos tinham roubado minhas pernas. Risos. Ainda não tinha brincado numa casinha que tinha cadeira de rodas. E naquela época parques de diversão não combinavam com cadeirantes.

Ainda bem que estamos evoluindo, vi muitas crianças cadeirantes com suas famílias lá. Não há porque ficar trancafiado dentro de casa e nem evitar olhares alheios.

Por essa e outras quero parabenizar o parque temático Sensapolis. Foi sensacional!

*Por favor, se alguém tiver dicas de lugares com experiências de inclusão social, deixe nos comentários. Vamos compartilhar o que traz o bem.

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Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição 4.0 Internacional

10 comentários

  1. Enriquecedor o seu texto minha querida amiga. Tenho certeza de que suas crianças serão adultos mais conscientes e solidários. Adorei do início ao fim Cristileine… tenha uma semana iluminada. Beijo no coração!

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  2. Que legal! Muito interessante mesmo!
    Aqui em SP tem o Museu da Empatia. Mas acho que é um projeto internacional, não sei tem na Alemanha, mas fica a dica. 🙂

    Curtido por 1 pessoa

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