Entre Elis Regina e Van Gogh.

O que têm em comum Elis Regina e Vincent Van Gogh além dos recentes filmes? Acertou se disse a depressão e a poesia, dor e criatividade. Evidência de que a saúde mental é a arte que precisamos aprender.

Sou fã de ambos, então tentarei fazer uma conexão entre a vida deles, baseada nos filmes que vi enquanto estava cruzando o oceano vindo para o Brasil. Buscarei as semelhanças e diferenças dessas saudosas personalidades.

Bem, acredito que tanto a cantora quanto o pintor dispensam apresentações, mesmo porque o objetivo desse texto não é bibliográfico, para quem tem esse interesse recomendo altamente que vejam os filmes (Elis/2016 – Van Gogh/2017). Os quais gostei bastante e me abriram horizontes para essas reflexões que quero dividir com vocês. Vamos lá.

Tanto Elis Regina quanto Van Gogh eram perfeccionistas, viviam em função da sua arte, amavam o que faziam. Determinação foi a característica mais marcante do começo ao fim  de suas vidas. Ela atingiu o auge do sucesso, ele ficou famoso só após a morte.

Os dois se mataram, Elis com a mistura de álcool e drogas, Van Gogh com tiro. Nos filmes percebe-se claramente a depressão atuando na vida deles. Lembrando que álcool e drogas são maneiras de tentar disfarçar a depressão. No caso de Van Gogh, ele reconheceu seus limites mentais, tinha episódios psicóticos e alucinações, então pediu para ser internado para tratamento.

O Inconformismo era marcante nos dois, ela com a repressão causada pela ditadura militar, ele com a pobreza, a vida dos trabalhadores, os conluios do meio artístico e religioso. Van Gogh era idealista, queria mudar o mundo, dar voz aos desfavorecidos através de suas pinceladas. Ele tinha dificuldade com ordens e regras. Elis era decidida e audaz, ficou conhecida como Pimentinha porque dizia tudo o que queria, era impulsiva.

Elis atingiu o auge da fama em vida. Parecia autoconfiante, por vezes chamada até de arrogante. Após sua morte teve sua imagem defamada por causa das drogas. Nada disso apagou da memória coletiva sua voz inesquecível. Van Gogh era considerado louco e fracassado durante a vida. Após sua morte veio o sucesso, hoje é considerado um gênio incompreendido.

No Museu de Van Gogh em Amsterdã você pode acompanhar a evolução das pinturas dele, perceber como foram mudando suas cores e traçados, sentir a beleza de outras formas. Por exemplo, quando se fica de frente com “Os Girassóis”, se percebe que ele via beleza nas flores mortas/murchas, assim, você nunca mais vai olhar para um vaso de flores do mesmo jeito. Talvez seja por isso que hoje eu tenha o hobby de tirar fotos de flores do mato, risos.

Os Girassóis, Vincent Van Gogh

Quando você vê as cores escuras, carregando a atmosfera na obra “Os Comedores de Batatas”, a explosão de pinceladas em “Noite Estrelada”, ou a sutileza de “Amendoeira em Flor”. Então você percebe que a arte de Van Gogh é imortal.

Noite Estrelada, Vincent Van Gogh.

Nossa delirei, vamos voltar ao foco…

Família: ambos tinham necessidade de formarem família. Por serem temperamentais e focarem na carreira suas tentativas de casinha não deram certo. Elis Regina tinha apego aos filhos, mas fazia de tudo para brilhar e estar nos palcos. Por toda a vida, Van Gogh teve uma relação fraterna com seu irmão mais novo Theo, quem sempre lhe acreditou e apoiou.

Relações sociais: Elis era extrovertida, cultivava  amigos e tinha preocupação com a opinião pública. Van Gogh era introvertido, tinha dificuldades para se relacionar, quase não se importava com as críticas ao seu jeito de vestir e pintar.

Como todos seres humanos, eles tinham necessidade de serem amados. Temiam a solidão. Só que ficaram cativos da falta de habilidade de lidar com a própria arte e com a saúde mental.

Enfim, eram pessoas que faziam o que amavam, mas não se cabiam dentro de si, não por mera vaidade, mas por uma essência inquieta de ser, por falta de preparo para lidar com os pensamentos e sentimentos, por falta de enxergar sentido no mundo e nas pessoas, ou seja, por depressão.

Se fizeram, se destruíram, nos deixaram um legado na música, na pintura, no chamado de “se cuide”. A nossa arte é feita todo dia em cada escolha e consequências.

29 comentários

  1. Oi Cris!
    Amo os dois, embora conheça pouco sobre a arte de “quadros”. São historias de vida marcante, dos dois…
    E você é uma artista também, com suas características próprias, com a coincidência de ter a mesma patologia, mas alerto-lhe que sua lucidez não lhe permitirá agir como eles… Quero ver você sempre forte no combate a sua doença, feliz em demonstrar e externar sua arte sempre!!!
    Te admiro, e confesso que estou sempre torcendo por você!
    Grande Beijo de Alma!

    Curtido por 2 pessoas

  2. Texto irretocável Cristileine. Concordo que você delirou: “… deu lírios” rsrsrs. Sua reflexão foi tão bela mas, ao delirar inevitavelmente levou-me ao sermão da montanha: “… Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam”. Obrigado por nos direcionar o olhar para a beleza do seu olhar. Paz e bem… beijo no coração!

    Curtido por 1 pessoa

  3. Querido Sandro, suas palavras são centelhas de esperança na minha vida. Obrigada! Esse versículo sempre me comove…não me canso de olhar os lírios do campo… tamanha beleza e perfume dispostos na natureza para quando estamos preparados para apreciá-los. Fique em paz🙋🏽‍♀️

    Curtido por 1 pessoa

  4. Nossa… o texto fluiu tão bem que terminei de ler e ainda fiquei estático olhando para a tela do computador, abismado com tamanha qualidade. Além de estar muito bem escrito, o assunto é muito interessante e eu, que sou leigo no que diz respeito à vida dos dois artistas citados, fiquei com muita vontade de me aprofundar nas suas obras. Parabéns!

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  5. Também vou conhecendo aos poucos conforme as oportunidades. Elis Regina marcou minha adolescência/juventude especialmente com as músicas Como Nossos Pais, o Bêbado e a Equilibrista, Velha Roupa Colorida… Já para a pintura fui despertada recentemente e ando descobrindo um mundo incrível. Agradeço sua participação aqui é desejo ótima semana. 🙋🏽‍♀️

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  6. Olá gostei muito deste post também gosto dos dois artistas, não sabia que a Elis Regina tinha morrido de problemas de toxicodependência mas ao ouvir a suas musicas apercebi-me que as letras dela algumas tinham haver com o mundo da droga quanto ao Van Gogh sempre foi um inconformado na altura a sua pintura era considerada infantil, ele revoltou-se e nunca desistiu e sim existe problemas de saúde mental muito bom post
    Lady Madelaine

    Curtido por 1 pessoa

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