Bela roupa.

Em 1980, Carmelita foi passear no shopping com seu tio, entre uma vitrine e outra  ela se encantou com um terno verde abacate.

Paralisou e ficou com os olhos brilhantes literalmente vidrados. Perdida da família, e no tempo escutou:

  • Se avexe menina. O que te aporrenta aí?

– Olha tio, olha que bela roupa!

– Ah menina esse abacatão, custa mais que que meu salário inteiro. 

Puxada pela mão, ela foi, a semente ficou.

Seis meses depois Carmelita arrumou o primeiro emprego, cheia de si sabia que era um passo para muitos sonhos.

Sobe, desce, organiza, sala, copa, cozinha, banheiro. Uma luz vinda da lavanderia, lá estava ele, o terno abacate no monte de roupas de passar.

Invadida pelo deslumbre com o toque no tecido nas suas mãos, ali estava ele, sem parede de vidro e nem dígitos para lhes separarem. A semente brotou: Bela roupa!

Da cozinha um grito: se avexe menina o almoço vai atrasar. Voltando à realidade, o dia seguiu. A tarde caiu. Na noite sonhou. Enfim, dentro do terno cor de abacate.

Magnífico contraste com a pele morena e os cabelos ruivos, maravilhosa sensação de poder. Com ele, Carmelita andava por uma rua sem chão, foi para um baile sem pessoas, a cor não reluzia na escuridão. Bebeu um copo d’água e a roupa começou a criar tronco, galhos e ramos. Carmelita sentia muita dor naquela explosão de crescimento.

Trimtrim Trimtrim despertador chamando hora de ir trabalhar. Era domingo, mas ia ajudar a servir o coquetel de aniversário da patroa Elisa. Renda extra para poupança, vibrou, tentando esquecer do terno e do sonho.

Mesa posta, velas e flores, convidados chegando. Elisa desce deslumbrante pelas escadas de mármores no seu terno verde abacate. Carmelita tenta se desvencilhar das memórias. Se concentra em equilibrar os drinques. Muitos sorrisos e maquiagem.

Que chiqueza bárbara, pensou. Para não olhar para o terno, que tanto destacava no salão e lhe atordoava, Carmelita se pôs a fixar nos olhos de Elisa. Pra quê?

Em poucas horas percebeu seu caminho sem sentido, sua festa sem pessoas e toda aquele vazio escuro.  Bela roupa, pensou.

Arrepiada de chegar tão perto daquilo que não conseguia nomear. Chegou próximo  da patroa e quis lhe dar um copo d’água:

  • Por favor beba dona Elisa, beba, insistia eufórica. Agora faltam as folhas, o sol já vai raiar. Todos riram sem saber do quê.

Envergonhada por ser chamada a dar frutos, Elisa chamou Carmelita no canto e disse:

  • Vai embora, amanhã a gente conversa.

Nenhuma delas viu a bela roupa da flor do abacateiro.

6 comentários

  1. Tenho minhas autocríticas com esse texto por causa das polaridades. Desse papo de esteriotipar essa ou aquela classe social. Mas achei que a mensagem era maior (das roupas que vestimos para manter os papéis sociais). Do descrédito nos sonhos (nos 2 sentidos)🤣 obrigada por você estar aqui🙋🏽‍♀️

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