Surdez da alma.

Quando meu sobrinho morava na barriga da mãe dele, ela teve rubéola, por consequência ele nasceu surdo. Passados pouco mais de vinte anos, ele conheceu uma garota também surda, com problemas sério na visão, se apaixonaram loucamente e agora tiveram uma filhinha. E essa menina, tem a graça que poucos tiveram nessa vida, que é estar nos braços de seus tataravôs.

Por aqui, a maioria sabe da minha dificuldade em aprender línguas estrangeiras, e olha aonde vim viver. Se eu pisar no pé de alguém tenho que falar “Entschuldigen”, e um adeus se transforma num “Auf Wiedersehen”. Por questões práticas comecei estudando o inglês, ainda não estou 100% (conto suas dicas Renata). Agora abracei de vez o alemão. Viel Glück!

Essa obrigação de ter que ter uma nova língua para me comunicar e inserir numa outra sociedade, foi um dos motivos desencadeantes da depressão. Você acorda e sabe que tem que ir para rua com aquele monte de vozes e olhares estranhos, sem entender nada; as suas vozes e olhares estranhos interiores começam falar mais alto. Você estuda, na pressão da entrega. Você entrega o que não tem. Tudo muito parecido com o mercado de trabalho, não é? Risos. Enfim, para mim, o primeiro ano de estrangeira foi lua de mel, tudo novo, lindo e funcional. O segundo ano adaptação, cair na real, o cotidiano é igual em qualquer país (realizações, decepções, corrupção ou terrorismo). E, agora, parece que tudo vai se encaminhar… Vixe, acho que o terceiro ano deve ser o da pretensão, mais risos.

Quando acontece caso de deficiência na família, ninguém mais é o mesmo, você é convidado a pisar do outro lado, à descobrir novos mundos. É tão maravilhoso saber o quanto a gente é pequeno e o quanto pode ampliar. Procuro falar com meu sobrinho olhando de frente, sei que ele lê meus lábios; ser sincera, ele não é burro; não lidar com piedade, ele é saudável e responsável; usar palavras  simples e diretas, ele não é mestre em português, sim em *libras, e eu, ah eu não sei nada de libras…

Tem dias que me sinto surda, tem dias que sou tratada como surda. Tem dias que quero colo, meus avôs já se foram, meus pais estão longe. Nem por foto nunca vi meus tataravôs. Eu, como meu sobrinho, e você estamos vivendo, con(terrâ)neos nessa temporada.

Quanto a depressão, acho que é a surdez da alma. Lidando com ela faço nascer as palavras, ainda que derramadas num papel. 

O que vai ser da menina “Sabedoria” não sabemos, mas para que saber antes do tempo se estamos aqui para aprender?

Ontem (26/09) foi o Dia Nacional do Surdo, o blog Diário da Inclusão Social publicou um excelente relato de uma garota deficiente auditiva explicando sobre seu mundo. Inteiressante leitura para aprender a ouvir o outro. 

*Libras = Língua Brasileira de Sinais. 

Curiosidades: 

  • Como diz no nome, é só a brasileira, cada parte do mundo tem a sua língua de sinais.
  • A comunicação não verbal se dá muito além do alfabeto abaixo, é uma conjunção do posicionamento das mãos no corpo, pontos de articulação, expressões faciais e corporal, movimento, etc.
  • Nem todo surdo tem o sonho do implante coclear, alguns preferem viver no mundo de sinais, são bem resolvidos, querem respeito por isso.
  • A língua de sinais é para os olhos, o que as palavras são para os ouvidos. Já experimentou escutar pelos olhos?

20 comentários

  1. Tenho uma sobrinha neta que tem uma tataravó. Cinco gerações de mulheres da mesma família juntas. “Minha neta, me dê cá sua neta”. Lindo de se ver. E surdez da alma é um bom modo de definir a depressão.

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  2. Que lindo!
    Não tenho familiares com deficiência, então vivo um pouco distante dessa realidade. Mas tento sempre ter empatia e respeito.
    Parabéns pelo texto, vale uma boa teflexão 🙂

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  3. Oi Tati, esse era o objetivo: reflexão. Há muitas coisas que não sabemos no mundo, bom mesmo é dividir experiências e ter com quem compartilhar. Obrigada por seu comentário 🙋🏽‍♀️ abraço.

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  4. Oi, flore! Ah, esse vazio existencial que nos assombra quando começamos a nos inserir em uma nova língua… Eu cá também estou a batalhar com língua nova, depois de já ter passado por isso uma vez. Às vezes me pego pensando que devo ser muito masoquista para me colocar, de livre e espontânea vontade, nessa situação (de novo). Mas vamos que vamos, que é o jeito. Minha frase preferida nessas horas é a “this, too, shall pass” – isso também vai passar. Então é seguir em frente mesmo 😉

    Beijo e boa sorte!

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  5. Olá, tenho acompanhado sua luta. Em tudo crescemos. Hoje fui na médica de família e voltei lembrando que 2 anos atrás eu chorava por ter perdido aquele caminho, chegar atrasada e levar bronca. Entender mesmo sem saber a língua, rsss. Hoje voltei de lá tirando fotos das flores do caminho e sorrindo a cada descoberta. Vamos que vamos.

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  6. Oi Cris!
    Maravilha!!!
    Marcante esta frase (Quanto a depressão, acho que é a surdez da alma. Lidando com ela faço nascer as palavras, ainda que derramadas num papel.) Profunda!… Todo texto é um mergulho profundo na alma… A prova de não detemos nada, e ao mesmo tempo temos tempo de lhe dar coma as necessidades para uma convivência melhorada e melhor, para com os outro… Agora só precisa sair do papel e encarar o corpo a corpo…
    Adorei, Grande Abraço de alma!

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  7. Bem vindo Guilherme. Cada um passa por uma experiência de modos distintos. Mudança é um desafio que pode derrubar ou fortalecer. Tenho outros textos falando do assunto. Espero que você os encontre, e se encontre no outro país. Abraços 🙋🏽‍♀️

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  8. Oi Cris!
    Sou novo por aqui, e fico muito feliz em trombar de cara começo já com um texto maravilhoso deste seu!
    Perfeita definição de Depressão!
    A dificuldade de aprender línguas. a sensação de acordar a saber que terá de se comunicar e aprender “forçadamente” é algo que estou vivendo e que vou viver, pois estou aprendendo outra língua, e em um mês irei me mudar para outro país e lhe dar com esse desafio tão grande.
    Abração! prazer, Guilherme 🙂

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  9. Não pense na dificuldade. Pense na benção que te ilumina por morar e viver um um país decente. Como queria estar vivendo em um país de língua germânica. Você é uma abençoada. Das leben genieBen!

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