Brilha, brilha, estrelinha.

Abalos sentimentais têm aqueles que a gente vê e aqueles que a gente nem percebe que estão acontecendo. Nessa semana tive ambas experiências que mexeram tanto com minha ancestralidade, quanto com minha espiritualidade. 

Nasceu minha sobrinha-neta, que dádiva e quanta história para contar. Fiquei imaginando aquele cheirinho, o rosto, aquele minúsculo ser nos meus braços, eu cantando “Brilha, Brilha Estrelinha“. Pela distância, não pude fazer nada disso, mas sei que ela recebeu esse encanto.

Isso  mexeu comigo. Revirei o baú de memórias, como meu avô avô chegou ao Brasil num navio de imigrantes espanhóis fugindo da guerra e da fome na Europa. Hoje a estrangeira aqui sou eu, com todas as sensações estranhas que essa palavra pode causar.

Liguei para cumprimentar meus pais pela primeira bisneta, nós éramos só alegria. Até meu pai começar a perguntar de nossa vida na Alemanha, sempre afirmando que no Brasil está tudo complicado. Contei que as crianças já estão integradas, que estamos estudando a língua. Contei outras coisas mais. Ele que tanto ama falar, ficou calado se balançando na rede só me ouvindo. Perguntei: o que foi pai? Meio sem voz ele respondeu “você está bonita”. A minha voz foi cortada porque vi lágrima de saudade escorrer, aquela que ele sempre teima em esconder. No fundo nós dois entendemos a mensagem que a bisneta veio trazer… 

Outro abalo levei com o retorno, agora bimestral, ao psiquiatra. Dessa vez sem grandes novidades, foi o tal do tudo bem. Quando na realidade não podia estar nada bem. Pois, antes de ir pra lá eu perdi o trem por um minuto, peguei um táxi e a taxista estava brigando com alguém pelo rádio, não entendi nem metade, mas só o tom da voz e o cheiro de cigarro no carro fechado já era o máximo do desaforo. Mas tinha mais por vir, ela foi por um caminho que estava em reforma, teve que dar uma volta imensa, paguei o dobro da corrida e ainda cheguei atrasada. Como eu poderia estar com aquela calmaria? Como?

Sai do consultório satisfeita com o imaginário progresso, fui para casa e como nos outros dias só pensava em dormir. Cabulei a aula de inglês, para dormir, fiquei me sentindo culpada. Chegou o dia da consulta com a psicóloga, contei minhas peripécias. Ela me disse: Você percebeu que alguns sintomas da depressão ainda estão te rondando. Como assim? O principal você não falou para o psiquiatra, essa falta de energia, essa vontade de fugir do corpo no sono, essa falta de reinvidicar seus direitos

Upa que tomei um susto, é verdade. Fatos que só a terapia pode mostrar. Repensei nesses seis meses de tratamento. Passei pelo fundo do poço, melhorei, entrei na euforia em me ver livre dos sintomas corrosivos, e agora estava indo rumo a apatia.

Disse para ela que eu estava me entregando nos braços da preguiça, ela me chamou atenção, que estava tendo auto preconceito, o qual eu mesmo luto contra. Depressivo não é preguiçoso, depressivo tem falta de energia, de vitalidade. E o pior, depressivo é pessimista e fica se culpando. Ela também lembrou que antidepressivo dá a mão, mas que o esforço de levantar vem da gente mesmo. 

Fica aí o alerta, às vezes a gente nem se percebe, e vai se encaminhando para a depressão de novo. Temos que observar os pontos de gatilhos e atuar antes. No meu caso agora é o sono excessivo, antes do tratamento era a insônia. Calma, antidepressivo não dá sono, não é calmante. Acredito que esse sono é meu corpo e pensamentos que estão em processo de regulagem. Como disse, ainda estou no meio do tratamento. 

Outro gatilho, é que fico monossílabica, quase não respondo meus amigos, parece que desligo o botão social. Então, quando percebo esses comportamentos, já penso ei, ei, eu, ou, o que você pode fazer para melhorar?

O grande avanço do tratamento é poder entender isso tudo, e melhor, ter a vontade de ser melhor, de vislumbrar algo que mexa com o corpo e com a alma. 

Exercícios físicos são fundamentais para a liberação de serotonina,  afinal não pretendo tomar antidepressivo para sempre. Ainda não comecei nada firme, só as esporádicas caminhadas, e, mais regularmente a plataforma Wii Fit Plus, que posso fazer em casa, sozinha, haha. 

Espiritualidade, agora me sinto muito tocada a retomar o rumo da minha alma. O que estava completamente apagado… tive diversas experiências religiosas; alguns momentos que senti o vulto da morte; a graça de poder contar com meus ancestrais e descendentes. Agora só me resta regar essa semente da eternidade que me toca.

Como se vê, muito trabalho a fazer, tudo continua em movimento quer a gente queira ou não.  Espero que eu tenha energia e clareza. Pois, ainda que pequenos somos, as partículas invisíveis da eternidade estão a cantar 

Brilha Brilha Estrelinha.

12 comentários

  1. Fico feliz pela “Estrelinha que brilha” e por seu avanço no tratamento Cristileine. Aceitar que as coisas nem sempre sai do jeito que queríamos, não nos dar direito a inércia. Acredito que exercícios físicos são essenciais sim. Realmente sinto-me feliz por você, pode ter certeza disto. Um grande beijo no coração e que sua também estrela brilhe sempre com este intensidade!

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  2. Seu texto é pessoal, mas também atinge qualquer leitor sensível. Fiquei emocionada quando você escreveu sobre o seu pai e sobre seu processo de autoconhecimento. Lindo🌟🌟🌟🌟🌟

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  3. Grata estou por seu comentário. Fico receosa com textos pessoais, mas se o blog se dispõe a falar sobre saúde mental, preciso expor minhas vivências. A maneira que encontrei de reflexão e atuação no mundo. 💐Bom fim de semana💐 E até daqui a pouco nos textos da vida.

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  4. Calma, paciencia e perseverança com muita resiliencia sao o segredo em doses homeopaticas e cada qual a seu tempo. Aqui nao pode ser tudoaomesmotempoagora como gostariamos. Os ciclos biologicos e espirituais têm seu tempo e ritmo e só cabe a nós respeitar os sinais e lutar. Vida é luta, não briga! Venceremos 😚

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  5. Olá Leoa Leão!

    Parabéns por sua sobrinha-neta… e Parabéns pelo texto, pois o exercício da escrita é também a pratica do autoconhecimento, pois expõe, se relê, revê, reflete… é um registro que funciona como pistas, como sinais do caminho… e dialoga com o mundo, com os outros eu’s.

    Ser honesto consigo mesmo, a ponto de ser honesto com o outro… colocando vírgulas e pontos, resgata-se o sentido do Si além de tí… aquele sopro, silencio que nos acolhe e renova.

    É isso aí! Feliz por você. Encontre-se, se olhando e vendo.
    Ótimo fim de semana.
    Um abraço
    Adriano

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