A mídia e o suicídio.

Hoje dia 10 de Setembro, Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, essa é minha opinião sobre a mídia e o suicídio.

 

Basta uma novela, uma reportagem especial, um debate num programa de TV famoso para um tema sair do tabu e virar assunto do momento. Como foi com a clonagem, as drogas e agora a corrupção.

Fomentado pelos meios de comunicação de massa, a sociedade adquire coragem e informações para tocar na própria ferida. Mas já repararam que nem todos assuntos são debatidos com profundidade? É o caso do  suicídio. Depois do caso do jogo da Baleia Azul e do seriado 13 Reasons Why houve um alvoroço de notícias. Quando um famoso se mata também. Logo tudo é varrido para debaixo do tapete, o assunto se esvai, o problema continua porque não foi atacado suas causas, e tudo volta a ser como antes. É como se uma pessoa que se mate seja tão natural quanto foram os cortes de cabeças na inquisição, não é.

Sei que a mídia têm seus motivos para tratar do assunto com parcimônia como: não super expor a família da vítima, evitar a banalização da vida e glamorização da morte, e principalmente pelo efeito Goethe, que é o aumento do número de suicídios após divulgação pública. Esse efeito cascata de ondas de suicídios foi observados  após o romance “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, do escritor Johann Wolfgang von Goethe.

Todos aqui sabemos de um ou outro caso de suicídio. Já repararam como tais notícias são superficiais? Especialmente quando acontece com pessoas anônimas como eu e você. Como jornalista sei que há um pacto não verbal para “não” divulgar casos de suicídios. Mas eu sempre questiono esse abafar de vozes, esses panos quentes, essas vistas grossas porque cresce o número de pessoas que tiram a própria vida. Além do mais, hoje em dia toda e qualquer informação está disponível online, não é mais necessário pegar um livro, ou ligar uma TV,  para ter inspiração para o bem ou para o mal, o acesso está a um clique.

Então, já é hora de debater sobre o suicídio como um caso de saúde pública. Ele mata mais que as guerras, ele com sua boca aberta está devorando em todo canto, falando mais alto que nossas próprias bocas caladas. Deixa rastros para quem fica. Quem vai faz um atentado contra a dor, a dor de viver, essa mesma que todos nós temos que pode se desenvolver ou não, depende da condução do caso.

Quando se vai uma vida, todas as outras que a nutriam ficam aqui. Um pedaço dessas que ficam, também morre. Dor que também deve ser compartilhada para o alívio e não estigmatizada pela vergonha e culpa. Cada um escolhe seu caminho.
As pessoas estão ficando cada vez mais desorientada e doentes. Mas o suicídio não é só cometido por quem têm transtornos mentais. Inadequação social, desemprego, falência, racismo, bullying, homofobia, depressão, entre outros são causas de suicídio que atinge pessoas de todas idades e classes sociais.

“A cada 4 segundos uma pessoa se mata no mundo. A cada 2 segundos uma pessoa tenta.” Ana Beatriz Silva, no livro Mentes Depressivas.

Sim, precisamos falar sobre o assunto, tem muita gente precisando de ajuda agora. Ajuda que é oferecida até gratuitamente pelo CVV (Centro de Valorização da Vida), universidades e institutos de psicologia e psiquiatria nas médias e grandes cidades do Brasil. Mesmo nas pequenas cidades há serviços de aconselhamento nas unidades de saúde. Falar com alguém de confiança é dar um passo em direção à vida, falar com um profissional competente é começar trilhar o próprio caminho. Eles mostrarão direções além da morte. As decisões são sempre pessoais.

Então, o maior respeito que podemos oferecer ao outro é a prevenção, usando nossos ouvidos sem julgamento, nossa boca para procurar ajuda, nossa conduta recebendo e dando informação e atenção à quem precisa. Nossa sociedade clama por socorro e ficamos usando emojis de macaquinhos: não vejo, não ouço, não escuto. Precisamos pensar o desencadear de cada omissão. Contraditória essa nossa sociedade, é a que mais possui bens e informações da história humana, é a que mais corre atrás da felicidade imediata, e é a que mais se mata.

Voltando, sou favorável do amplo debate nas mídias das causas e consequências sociais do suicídio, claro que com ética e responsabilidade. Falar sobre as causas, não sobre os meios usados. Isso tanto para o esclarecimento do assunto, quanto para evitar a marginalização da vítima e da família. Penso que falar sobre suicídio nas mídias, auxiliará especialmente os mais necessitados que geralmente não têm planos de saúde, alimentação, saneamento em casa, mas têm televisão, e recebe majoritariamente conteúdos sensacionalistas. Mais do que entreter e informar, a mídia forma opinião. Então, precisamos cobrar comunicação descente. E se não oferecem, temos que ser nós mesmo esse canal consciente em nossa comunidade. A informação boca a boca tem força estrutural.  Falar é a melhor solução, mas não o falar por falar, tem que procurar saber o que se passa na mente de um suicida. Lembrando que falar não é julgar. E aí, dá para ficar só nos emojis ou vamos nos informar e divulgar sobre o suicídio?
Gostaria de saber sua opinião se a mídia deve ou não divulgar casos de suicídios. 

13 comentários

  1. De plano assino junto. É mais que hora de se colocar à mesa questões graves de âmbito social – inclui tudo – que têm reflexo direto na vida. A mídia e outras instituições devem com a sociedade assumir esse papel. Excelente reflexão. Abraço.

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  2. Por enquanto, vamos fazendo nossa parte aqui. Com o desejo que essa reflexão se estenda para tudo “que tem reflexo direto na vida”. Obrigada por sua presença. Tenha uma maravilhosa semana com o canto de seu amigo sábia. Abraços.

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  3. Qual veículo melhor do que a mídia para levar um debate às massas? Concordo que deve ser algo feito com responsabilidade, com profissionais sérios e que conheçam o assunto, não ser um debate feito por um apresentador qualquer. O tema é sério e deve ser tratado como tal.

    Curtido por 1 pessoa

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