Viagem do viajar.

Foto da flor clicada na mureta do Castelo de Sintra, mas poderia ser em qualquer passeio.

A vida está me dando coisas leves, ou melhor, eu estou sabendo recebê-las. Olhando para os fatos por outra perspectiva, diminuindo o pessimismo e a expectativa. Assumindo os momentos felizes com mérito e sem culpa. Afinal as coisas são o que são, pau é pau, pedra é pedra, mar é mar. O que pode mudar é nossa força para usar tudo o que recebemos com gratidão e desenvolver o poder da criação. Ainda assim, toda essa mudança começa na atitude individual e depois afeta o coletivo. 

Tais reflexões me vieram a mente depois que fiz uma viagem só com minha sogra de 73 anos. Ela tem uma certa dificuldade de locomoção por usar próteses nos joelhos e coluna. Lá fomos nós, nos aventurar por terras portuguesas da onde sairam seu avô e minha avó para o Brasil em tempos longínquos. 

No primeiro dia eu já virei o pé com o salto anabela nos paralelepípedos, ela me segurou. No segundo, troquei anabela por uma sapatilha bailarina, escorreguei, e a sogra também me segurou outra vez. Foi engraçado, vi que não estava tão firme quanto eu imaginava. Comecei a sair de chinelos.  

Tivemos que fazer os passeios em passos vagarosos, o que foi ótimo, ver cada detalhe da cidade, sentar, conversar com os nativos. Um motorista de ônibus nos contou sobre sua infelicidade conjugal e o aparecimento de uma gatinha para quem estava transferindo seu amor. Uma senhora a caminho do trabalho mudou o trajeto para nos mostrar nosso caminho perdido. Um artista de rua colocando as pedras em equilíbrio, o outro estátua viva cantando John Lennon para minha sogra. O rosto dela tomando formas cômicas em uma caricatura, e seu sorriso real mais expressivo do que o desenhado. 

Eu deitei  embaixo das rochas ao lado da praia, areia gelada, sol escaldante, barulho do mar, fiquei a olhar o céu azul pela fenda da rocha. De repente li: perigo de deslizamento. Pois, a sogra perguntou para outras pessoas que ali estavam, um morador lhe disse: minha senhora não tema, quando nasceu já assinou seu contrato de volta

Certo dia, num castelo imenso e lotado, perdi a sogra, desesperei, sai perguntando para todos que falavam português, só duas mulheres disseram ver uma senhora com bengala descendo as trilhas, só que eram muitas trilhas, muita mata. Acionei a segurança que tentava me tranquilizar dizendo que tudo era filmado lá. Aí entra uma senhora com o nariz sangrando porque caiu na rampa, os cabelos brancos estavam vermelhos. Saiu meu chão. Fiquei na agonia da espera por mais de uma hora, quando me avisaram, sua sogra está sentada na portaria de saída. Peguei o ônibus e fui encontrá -la, cheguei lá e ela com aquele sorriso costumeiro, e disse sabia que uma hora você tinha que passar por aqui. Que nervoso que deu, depois pensei, realmente há muitos caminhos que temos que passar por aqui…mas a entrada e saída continuam no mesmo lugar. 

No outro dia caminhando a beiramar escutamos: olha finalmente achou sua mãe. – Não, não é minha mãe, é minha sogra. Eram as irmãs brasileiras, imagino por volta duns 60 anos, que eu tinha abordado no começo da busca. Sabe que quando vimos ela descer de bengala, nos sentimos entusiasmadas de subir sem o ônibus. 

Vejam só, uns se espelhando nos outros, ainda que o outro não saiba.  Naquele mesmo dia recebi o telefonema do marido agradecendo por proporcionar momentos de alegria e suspiro para a mãe dele. Imagina se contasse toda a história naquela hora,  hahaha, agora posso rir. Confesso que também tenho meus agradecimentos, por ele ter ficado com as crianças nesses cinco dias inesquecíveis. Quanto soube da história familiar deles. Quanto entendi mais de nossa história. 

Enfim, quero dizer que dessa vez tive uma outra visão do turista protagonista, sim continuavam multidões com suas máquinas fotográficas e desespero por estar no mesmo lugar e ainda ser explorados por isso. 

Só que dessa vez fiquei imaginando em quantas noras e sogras poderiam estar se descobrindo naquelas paisagens, quantos amantes e amigos se conhecendo em diversas poses, quantos trabalhadores trocaram o sol árduo do arado para trabalhar como guia de turismo. Enfim, divagações de quem só está de passagem nessa terra.


Sugiro a leitura dessa outra Opinião na DW: A busca pela verdadeira viagem

Também adoraria receber sua opinião sobre o que pensa do turismo, que tipo de turismo gosta, que tipo não gosta, etc e tal.

8 comentários

  1. Gostei imenso da sua descrição desse tempo aqui, Cristileine 🙂
    Eu gosto de descansar, e conhecer. E claro, levo sempre a câmera. Mas prefiro sempre lugares ou horas desertas. Nunca gostei da muvuca… Bom. As vezes eu gosto. Mas gosto mais de ter tempo. De poder estar mais tempo em um lugar. Aproveitar bem. Não gosto de passar correndo… Parece quase um tempo perdido…
    “Afinal as coisas são o que são, pau é pau, pedra é pedra, mar é mar”. Absolutamente isso. 🙂
    Beijinhos!

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  2. Acho que muita gente viaja só para sair de onde está… lolol
    Eu sou um desses, provavelmente… Ainda que eu me delicie com os lugares para onde vou 🙂

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  3. Bela descrição de viagem, Cristileine, e espero que esteja tudo bem com a sua sogra! 😀

    Eu não sou muito de viajar, mas, quando o faço, gosto de sentir o momento e perder o meu olhar para a beleza e o encanto do lugar. Não gosto de ficar fotografando: gosto de ser capturado pelas impressões e de levá-las comigo na viagem de volta.

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