Novos setênios.

Tudo se desdobrou há muito tempo atrás, mas as imagens são vivas na mente até hoje como o cheiro do café que invade a casa todas as manhãs com o nascer do sol. 

Certamente, a pequena garota dos olhos de mel estava muito animada, depois de oito anos de vida, finalmente iria ganhar sua primeira festa de aniversário.

Balões, bolo, docinhos, lanches, bebidas açucaradas, carinho, criança muita criança, algazarra, música, presentes, presença. Havia um brilho colorido especial no ar, naturalmente trazido pela felicidade dos olhos de mel.

Mais um ano, pulou a casa dos 7, mudança de setênio; família, amigos, vizinhos na construção de uma vida, de um sonho infantil.

Naquela cidade de pouco mais de cinco mil habitantes, a maioria trabalhadores rurais nas culturas de laranja e cana. Onde as atividades de lazer da garotada eram caminhadas pela praça pública, ao redor do coreto e ver peixes no obelisco. Tudo isso depois da missa é claro, o povo tinha que ser colonizado, quero dizer, catequisado. 

Quando soltos na rua, quase sempre depois dos afazeres diários, os jogos eram esconde-esconde, pega-pega, pula corda, queimada, amarelinha todos esses tradicionais, como outros não convencionais como caça vagalume, conta besouros, colares de gravetos de eucaliptos. 

Na casa de olhos de mel, os jogos preferidos eram dominó, pega vareta, resta um, cinco marias,  quebra cabeça, dama, forca, assim como, um bonecão de plástico e uma boneca de milho seco feita por sua avó.

De repente, batidas na porta da frente, o batimento cardíaco dispara, gatilho para ansiedade vindoura, começam a chegar os convidados. Parecia que a cidade parada parou.

Mais bonito do que o vestido azul marinho de bolinhas brancas, que olhos de mel usava, apenas seu sorriso de menina realizada, tal como, estrelas num anoitecer. 

Corre corre da criançada, tios bebendo caipirinha, avó reabastecendo batatas curtidas. Olhos de mel com um chapéu na cabeça e uma bexiga na mão como coroa e cajado de princesa, pura realeza.

Com fervor, sua mãe gritou: hora de cantar parabéns! Todos ao redor da mesa, no centro, o imenso bolo com muito glacê, terminada há poucas horas pela comunidade. Dos dois lados do bolo, longas torres de balas de coco fresco, envolvidos em papel de seda brancos pareciam montanhas nevadas que a menina nunca imaginou ver.

“Mamãe, por favor, por favor, me deixar acender a vela”. Desejo realizado!

O fósforo tocou o papel, que tocou na torre da direita, que caiu na torre da esquerda e se uniram em chamas sobre o bolo. 

As tias jogando cobertor para abafar a labaredas, as crianças correndo de medo, os tios bebendo, a mãe gritando, a vó esqueceu das batatas. 

Você acha que foi o fim dessa festa? Absolutamente não, a vida continua, sempre é sempre.

Novos setênios virão. Quem sabe olhos de mel conheça a neve.

8 comentários

  1. Cinco marias deve ter o nome diferente em cada região do país. São pequenos saquinhos preenchidos com arroz, ou, feijão cujo objetivo é jogá-la para cima e ir coletando, com a mesma mão, uma a uma até conseguir as 5.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s