Quem sou eu?

Caiu um fio de cabelo branco no banco do trem. Veio o vento o levou longe. Fiquei observando parte de mim se dissipando. Insignificâncias? Talvez. 

Naquele pedaço de quase nada tinha tudo de mim, o que conheço e o que desconheço, informações valiosas e raras agora sendo pisadas por sapatos estranhos e imundos. 

Passo a mão na cabeça, têm muitos deles ainda no couro cabeludo, genes preservados, unidade fundamental da hereditariedade, unidade fundamental do eu.

Será que meus filhos serão calvos como o pai, ou, esparramarão seus cabelos brancos por aí? 

Salvador Dalí não teria sido exumado recentemente, a pedido de uma suposta filha, se ao menos tivessem um fio de cabelo dele por aqui. E pasmem, dizem que seu bigode estava intacto após 28 anos debaixo da terra, naquela mesma posição emblemática marcando dez horas e dez minutos. 

Realmente a vida da gente é surreal! Pedaços de nós são eternos denunciantes. Somos marcantes, querendo ou não, existir é muito mais do que o aqui e agora. Somos artistas raros em *servidão voluntária. 

E o relógio continua girando, e o tempo derretendo, pedaços de nós sendo pisados, criatividade enterrada. 

E nós aqui, responsáveis pela própria exumação em vida se quisermos ser salvador de nossos genes, da nossa futura geração. 

Dali, de perto da essência do ser, tocamos nossa arte, moldamos o próprio caminho. Mas, talvez, preferimos a insignificância.

Teatro-Museu Dalí, Figueres, Espanha.


  • Que tal pesquisar sobre o Discurso da Servidão Voluntária, do filósofo Étienne de La Boétie?

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