Negra, branca, jambo, gente.

Quem me deu a luz 

foi uma mulher negra

dentro do seu útero eu acompanhava 

a raça dela na roça para me criar

acompanhava a raça do corpo dela 

para me formar.

Nasci corri para os seus mamilos 

e ela para as minhas negras pupilas entreabertas. 

Com aquele leite branco e quente

jorrando vida em minha boca

fechei os olhos e tudo ficou lindo céu estrelado.

Tudo ficou igual na casa do útero 

estávamos ligadas de novo

como antes do corte do cordão umbilical.

Tudo igual ao que eu via dentro do útero: 

calor, afeto, proteção 

medo, desejos, escuridão.

Dias após fui registrada

na certidão de nascimento 

escrito em raça cor branca…

Nos cortaram de novo

poderiam ter colocado

Raça = humana

se bem que mais combinaria 

Raça = animal, bípede, mamífero da ordem dos primatas. 

Cresci me chamam de jambo

preferiria ser chamada de gente.

Cresci e vejo como pessoas se tratam diferentes.

A pele virou identidade

marcada por toda a vida

com cicatrizes do “ismo”.

Quando eu olho para a minha mãe 

vejo muito mais que útero e pele

vejo uma pessoa que lutou e luta 

para me manter em pé.

Vejo uma mulher que tem raça 

de se manter em pé 

há muitas Maria Lúcia por aí.

Desejo que essas Marias 

com seus úteros sangrentos 

dê luz à esse mundo violento.

Mãe sou papel e você é lápis 

nesse útero de história sem fim

que poderia ter traços 

mais suaves de dignidade.

Continuaremos escrevendo.

7 comentários

  1. Maria Vitoria, fico feliz com seus comentários, valeu. Quanto ao poema duro ter que falar em cor de pele em pleno século de automatização. Tanta evolução por um lado e indiferença do outro. Segue a luta.

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