Caminhos da Floresta.

“​Vamos passear na floresta enquanto seu lobo não vem”, assim foi o convite aos meus filhos para a caminhada matinal na floresta aqui perto de casa. Mãe estranha, filhos corajosos, ele perguntou: 

– Mas e se seu lobo vier? Eu respondi: 

  • Sua irmã nos defenderá

Ela é forte e logo mais vocês entenderão porquê. Então, ele disse: 

  • Eu não tenho medo de nada mãe, adoro ler livros de fantasmas e magia para lidar com o medo. Sei que muitas dessas coisas só moram lá. 

Já minha filha ficou em silêncio, só queria ouvir e segurar a minha “mãozinha”. E lá fomos nós, eles na minha confiança, eu na valiosa presença deles, caminhar nas florestas da Alemanha, o que é hábito popular aqui em qualquer estação do ano. As florestas são bem sinalizadas e cuidadas especialmente para a interação do homem com a natureza. Por causa disso existe muitas histórias infantis com a floresta de cenário como os contos dos irmãos Grimm (Chapeuzinho Vermelho, João e Maria, Branca de Neve, Rapunzel, Cinderela, A Bela Adormecida) todos contos familiares para minha filha.

Aproveitando a deixa, resolvi falar com eles dos livros que marcaram nossa infância/adolescência, começou por mim, uma vez que eles ainda vivem esse momento mágico.  Falei da Pollyanna com seu jogo do contente, livro que me ajudou muito  a enxergar a vida de modo diferente. Lembrei de O Mundo de Sofia que me abriu as portas da filosofia. De  O diário de Anne Frank, que abriu o mundo da história. De Feliz Ano Velho e seu também comovente relato pessoal de Marcelo Rubens Paiva, o qual me fez entender mais sobre deficiências e suas implicações sociais. Outro livro lembrado foi Admirável mundo Novo, com toda sua ficção científica e “coincidências” com o mundo moderno. E, claro também do clássico O Pequeno Príncipe, livro que foi unanimidade entre nós três, o qual reli recentemente e chorei de novo. Esse livro atemporal tem o encanto de ser compreendido de diferentes formas conforme a fase que o lemos. Nessa releitura fiz esse poema aqui: Rosa.

Depois que cansei de contar, rir e refletir. Chegou a vez do meu filho dividir suas experiências literárias que passou, além das publicações de suspense, por gibis da Turma da Mônica (eu também adorava, adoro); por livros do Diário de um Banana, Tom Gates… porém, a longa explanação foi sobre a coleção de livros do Harry Potter. Fiquei interessada para conhecer a série, quem sabe já consigo lê-la em inglês, vou tentar. Fiquei com raiva dos tios do garoto do personagem, curiosidade sobre o filho dele, vontade de ir para escola de magia, pensante nos conflitos com o bruxo das trevas, e imaginativa nesse mix de mundo real e fantasia que a narrativa compõe. 

Enquanto isso, minha filha continuava segurando a minha mão, interrompendo com suas perguntas curiosas e reclamando da longa trilha na floresta. Quando  chegou sua vez de falar, disse que não lembrava de nada, que os livros só viviam dentro do seu coração. Eu não quis forçar a barra porque os assuntos e o caminho já tinham sido longos e profundos demais. 

Enfim, vimos o rumo da rua de nossa casa meio ao clarão da floresta. Chegamos exausto. Eu cai no sofá, ele foi beber água e ela subiu as escadas. Desceu, deitou do meu lado e ficou muda, logo começou a chorar. Quis entender o que estava acontecendo. 

– Mãe caminhamos quase uma hora na floresta, ontem eu estava pesando 42 quilos e hoje não emagreci nenhum sequer. 

Minha cabeça saiu dos livros e veio para a realidade. Ela é uma criança forte, não só de corpo como de personalidade. Os meninos do judô fogem da sua presença, as meninas da escola falam da sua aparência por ser mais gorda e alta que as crianças da idade. Dei-lhe um abraço forte e disse: 

– Seu livro é você quem faz.  Cada um tem seu nome, sua personalidade, o que você precisa é ser saudável e amada. E isso você já é. Mais que isso, além de ser amada você é minha “professora do amor” e foi a primeira criança que me deu o “relógio da amizade“, lembra?

Esses são termos que usamos em nossa intimidade. Ela trocou o choro por um sorriso e me abraçou mais forte. Já passou falei para ela. Completei a declaração: 

  • Quando a mãe estava em seus piores dias jogada entre o quarto e no sofá, você estava ali segurando a minha mãozinha. Você não precisava falar nada, mas sentir seu amor me fez levantar. 

– O que você tinha mãe? 

– Depressão. 

– O que é isso? 

– Uma doença que suga nossa energia, deixa a gente mais triste que a tristeza. 

– Tudo bem mãe, já passou.

Logo pensei: Quantos medos levamos nessa floresta da vida…

12 comentários

  1. Oie!, tenho 13 anos e adoroo escrever poesias!, acabei de seguir seu blog, porque a partir de agora eu sempre vou acompanhar, retribua a ação e por favor faça o mesmo, vamos compartilhar nossas artes e se ajudar!! veja a minha poesia.

    PS: Parabéns li o seu texto e fiquei hipnotizado

    Curtido por 1 pessoa

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