Vida na Alemanha.

​Quero compartilhar com vocês como é viver em outro país. Uma experiência é você ser turista, visitar os lugares, registrar fotos, experimentar comidas típicas e voltar para casa. Outra experiência é dormir e acordar, não ver seus familiares e amigos, não entender nada do que os outros falam na rua, ter que trocar os sabores de sua alimentação, e o relógio biológico para acostumar com o clima e horários diferentes. 

Mudei do Brasil para a Alemanha em 2015. Entendo os porquês de dizerem que aqui é um país de primeiro mundo. Grande parte dos cidadãos sabem e reconhecem seus direitos e deveres. São diretos, precisos e policiam um ao outro. Fico impressionada como um país, que foi fortemente destruído pela guerra mundial, ter sido reconstruído dessa forma funcional em pouco mais de 70 anos. 

O transporte público me enche os olhos, aqueles trens, bondes, ônibus com conexão para todo lado. Dá pra sentir a mobilidade e pouca necessidade de ter um carro poluindo o meio ambiente. 

O usuário tem que comprar os bilhetes nos caixas automáticos, ou no app, e não há controle para entrar ou sair dos trens. Mas, se quiser dar uma de espertinho e andar sem o bilhete e o guarda pegar, a multa é alta. 

Sim, já tivemos que pagar essa penalidade quando estavamos aqui fazendo a visita de reconhecimento de área: procurando escola e casa. Compramos o passe para o dia todo, estávamos tranquilos, quando a fiscalização chegou e nos disse: esse bilhete não é válido para essa região. Fomos descobrir duramente que esse monte de construções encostadas umas nas outras não são bairros, sim outras cidades e regiões. Como ele viu no passaporte que tinhamos acabados de chegar, resolveu cobrar a multa só do meu marido e não de mim. A qual foi paga por cartão de crédito ali mesmo. Pagamos pela própria ignorância. 

Na educação, aqui não existe vestibular, as crianças são avaliadas por suas notas desde a quarta seríe para conseguirem a vaga na graduação, o chamado Abitur. Os familiares e professores escolhem quantos anos estudarão, ou melhor, se a criança terá formação geral básica, profissionalizante, ou, universitária. Mas, não sou especialista para falar desse assunto, o qual é muito controverso por aqui, minhas crianças não seguem o currículo alemão. 

Eu estudo inglês e alemão numa escola que é parcialmente financiada pelo governo que se chama Volkshochschule, lá existe muitos cursos de diversas áreas. Algumas classes são bem lotadas por causa do preço mais baixo. Eu só tenho que render elogios à eles nesses anos, acho que o curso depende muito do professor, como em qualquer escola do mundo.

Na saúde, é necessário ter o médico de família (clínico geral no Brasil). Quando se vai no hospital sem indicação dele, você escuta muita reclamação, às vezes nem é atendido, pois, dizem que hospital é só para urgências e emergências. 

Por não falar a língua, foi bem díficil achar esse médico de família por aqui. Na verdade, quem me indicou um foi o psquiatra quando comecei o tratamento para a depressão. Hoje me sentindo melhor, já tenho confiança para me explicar em inglês. 

Álias, como aqui é uma cidade altamente internacional, a maioria das pessoas falam o inglês também em qualquer canto. E quando você vai tentar usar as primeiras palavras aprendidas em alemão, eles já trocam para o inglês. 

Sim, já fiquei mais de uma hora esperando para ser atendida aqui. A diferença é que você sai so consultório com a maioria dos exames feitos lá dentro mesmo, exemplo: sangue, urina, eletrocardiograma, etc. Só se for preciso que recebe encaminhamento para o especialista. Acho que isso é para desafogar os hospitais. 

Todos os pacientes com convênio particular ou público são atendidos no mesmo lugar nos hospitais. Mas é claro, ouvi falar que alguns médicos priorizam os privados. Outro ponto interessante, é que aqui todos tem que ter convênio, quem não pode pagar o governo oferece um, acho que isso é uma forma de controlar quantativamente a população. 

Logo quando se muda para cá, é mandatório se inscrever no escritório do governo do seu município. Díficil andar clandestino por aqui. Eles têm muitas formas de controle. Até a receita médica sai com seu nome e endereço. As contas são enviadas para sua casa, na caixa de correio que também tem que ter impresso seu nome. Ufa.

Segurança, esse é um fator atraente daqui, se percebe que as pessoas andam mais livres e despreocupadas. Muitas casas nem tem portões. Eu como boa brasileira ando vigiando sempre. Minha professora de alemão disse que a tranquilidade tem mudado muito de umas décadas para cá. Que antes as lojas nem precisavam de segurança na porta. E que nas cidades maiores como Frankfurt, Berlim, Munique é necessário ficar mais atentos sempre.  

Na moradia, raramente se acham casas térreas, grande parte são pequenos apartamentos, casas geminadas. Raras são os que têm imóvel próprio, a maioria é alugado. Isso por causa dos preços altos e da falta de espaço. Isso é tão sério aqui, que eles alugam pedaços de terra na beira da rodovia para fazerem hortas, ou, passarem os fins de semana no ar livre. Os chamados Schrebergärten. Quando mudei para cá achei que aqueles espaços eram favelas, depois fui descobrir que não fui a única pensar assim. Nunca vi favela aqui, existem sim alguns guetos.

Tive dificuldade para alugar imóvel, além da falta de jardim, as lavanderias eram comunitárias (para todos do prédio), ou no banheiro, ou na cozinha. Muito estranho. 

A falta do churrasco com carne de vaca como é feito no Brasil, também tem haver com a falta de espaço para cultivar os animais. Aqui o churrasco é de salsicha, carne de porco, galinha, legumes; a carne de vaca tem outros cortes e é muito cara. 

Bom, o texto já está longo, e só estão algumas das minhas impressões. Se quiserem saber mais, só me digam o assunto que procuro esclarecer. 

Agora quero falar sobre uma indicação de livro que tem tudo a ver com esse assunto. Algum tempo atrás, minha amada irmã me escreveu para eu assistir uma entrevista na Ana Maria Braga. 

A príncipio pensei que era mais uma daquelas trivialidades dos programas matinais e não dei atenção, mesmo porque estava ainda muito fraca emocionalmente para ter qualquer tipo de interesse, tinha acabado de começar o tratamento para depressão. 

Dias após, me despertou a curiosidade e fui ver do que se tratava. Me surpreendi com o relato de uma jornalista que se mudou para a Europa, ela tinha as mesmas expectativas, realizações e amarguras as quais sinto aqui: 

Expatriada, estrangeira, esquisita, estranha, excluída, estragando, esquece, risos.

Tive um interesse imenso em conhecer o livro dela, entrei na internet, comprei a versão online e em poucos dias devorei aquelas conhecidas palavras e sensações. Foi tão bom, parecia que enfim encontrei espelho para minhas vivências. 

Geralmente quando conversamos com pessoas que moram em outro país, elas tendem a reforçar os pontos positivos, e quando falam os negativos nós tendemos a não escutar, ou achar que com a gente vai ser diferente. Tal como educar filho, sair da casa dos pais, reformar um imóvel, tentar mudar o comportamento alheio.

A gente parece que tem que passar por tais experiências para tirar as próprias conclusões. Entretanto, muitos desgates poderiam ser evitados se estivessemos de ouvidos abertos, se procurassemos nos informar mais do terreno a ser pisado, e se tivessemos planos alternativos para quando as coisas começarem a não sair como planejamos. 

Tudo isso e muito mais a jornalista Silvia Lourenço conta, no livro Atravessando o Oceano, de uma forma bem humorada, realista e poética. Ela descreve sobre medo, gratidão, trocas, diferenças culturais, dicas para mudar de país, estatícas de imigrantes, a influência do clima, as casas na Inglaterra, a língua como instrumento de inserção. 

O que mais me chamou a atenção no livro foi a interrelação entre o fato de ser estrangeira e as influências no humor, ou melhor, o sonho que pode virar depressão. A autora mesmo flertou com essa doença, mas percebeu antes e iniciou tratamento. Outros casos descritos em seu livro, não tem os finais felizes para sempre…

Gostei muito, leitura fluida, com relatos de casos reais, de gente como a gente que fica dividido entre o sonho e a realidade. Gente que vem a procura de emprego, estudo, amor, segurança, prestígio, enfim, de gente.

Se você pensa em mudar de país, ou mesmo se já mudou e sempre acha que tem algo para aprender, recomendo a leitura dessa obra para que sua travessia seja mais suave. Willkommen!

• Autora: Silvia Lourenço

• Data de publicação: Fevereiro de 2017

• Número de páginas: 258

• ISBN: 978-989-774-067-1

• Editora: Chiado

• Idioma: Pt/Br

2 comentários

  1. Adorei o post! Meu irmão se mudou pro Canadá, já fui visitá-lo e também fico com vontade de mudar às vezes. O que mais me atrai é a qualidade de vida e segurança. Mas ao mesmo tempo, fico pensando na adaptação, na alimentação e, principalmente, na saudade da família e amigos.

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