Herói dia a dia: eu e você.

Sou expatriada da melhor forma que se pode sair de um país e indo para outro país com o respaldo de uma empresa. Parece um sonho, ainda mais em tempos de crise, porém, isso não significa minimização de crises existenciais. 

Exemplo, um dia fui a um teatro que queria muito conhecer em Frankfurt, estava com meu filho, para assistir a cover da Tina Turner. Teatro pomposo com capacidade para mais de 500 pessoas, estava completamente lotado. Para mim foi o máximo, o espaço, os lustres, os assentos confortáveis de veludo, a acústica de primeira qualidade, as luzes, o musical muito bem elaborado. 

Meu parceirinho, única criança que vi por lá, perguntou porque todas as pessoas só dançavam mexendo as cabeça, cômico. 

Saimos de lá e fomos pegar o trem de volta para casa, era noite e muito frio. Ele estava com fome, falei na estação comemos algo, subimos a escada rolante, ele sentiu um cheirinho de queijo, quando na verdade fomos descobrir que era chulé. 

Quando chegamos no fim da escada nos deparamos com mais de 50 pessoas deitadas no chão, dormindo no frio que vocês conhecem do hemisfério norte. Elas estavam sem seus sapatos, cobrindo com o que podiam em colchonetes improvisados. 

Paralisei, mal tinha espaço para nós passarmos. Ficamos atônitos, sem reação por segundos. Olhei para meu filho sem palavras, e descemos a escada. 

De um lado meu garoto viu uma bela apresentação, que para ele era antiquado, cheio de figurões bem trajados, por outro lado viu a sempre moderna realidade da desigualdade social. 

De volta para casa eu perguntei: Será que são refugiados filho? Resposta: Claro que não mãe, refugiados aqui têm casa e assistência do governo. Passados os dias eu confirmei essa informação com outra brasileira que é professora aqui na Alemanha. Aquelas pessoas são na maioria gente que vivem  à parte do sistema, seja por opção pessoal, ou, por problemas familiares, mentais, drogas, etc. 

Naquele dia minha maquiagem desabou, a depressão gritou, eu queria fugir desse mundo. Chorei por me sentir tão pequena, a maioria das pessoas não imagina ver isso no chamado país de primeiro mundo. Fui do palco da arte, ao chão da realidade. 

Alguns conseguem viver em paz com isso tudo, eu não sou uma dessas. Sinto um misto de culpa, incapacidade, omissão, sei lá o nome que se dá para esse sentimento. 

Não acredito que nossos filhos possam andar seguros nessa Terra se tivermos outros sem pão, coberta, esperança, água potável. Talvez eu possa ser sonhadora, mas conformista jamais. 

Concordo com a letra da *música cantada por Tina Turner:

“Nós não precisamos de outro herói… nós deixamos apenas uma marca que será o brilho da história como uma vida.”

Algumas semanas depois desse dia comecei fazer o tratamento para depressão. Hoje consigo entender que não tenho como ser heroína, mas posso fazer diferença com meus dons e atos todo dia em casa, na rua, em qualquer lugar. Não posso mudar a história de quem não quer se mover, mas posso ser gentil e respeitar as pessoas, sendo expatriados, refugiados, platéia de teatro, moradores de rua. 

Antes de assumir um papel social, somos todos seres humanos e precisamos lembrar disso sempre. 


We don’t need another hero – Tina Turner.

  • Tradução da música por Vagalume: 

Nós não precisamos de outro herói

Fora das ruínas

Para fora dos destroços

Não pode cometer o mesmo erro desta vez

Nós somos os filhos

a última geração

Nós somos aqueles que deixaram para trás

E eu me pergunto quando nós vamos mudar isso

Vivendo sob o medo até nada mais restar

Nós não precisamos de outro herói

Nós não precisamos saber o caminho de casa

Tudo o que queremos é a vida além da Cúpula do Trovão

À procura de algo que podemos contar com

Tem que ser algo melhor lá fora

Amor e compaixão, seu dia está chegando

Tudo o mais são castelos construídos no ar

E eu me pergunto quando nós vamos mudar isso

Vivendo sob o medo até nada mais resta

Todas as crianças dizem

Nós não precisamos de outro herói

Nós não precisamos saber o caminho de casa

Tudo o que queremos é a vida além da Cúpula do Trovão

Então o que fazemos com nossas vidas

Nós deixamos apenas uma marca

Será o nosso brilho da história como uma vida

Ou terminar no escuro

É tudo ou nada.

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