Fotografias

Raras as lembranças fotográficas de quando eu era criança. O avanço tecnológico veio num flash anos depois. Duas ou três fotos em preto e branco de bebê.  Algumas coloridas da primeira infância. Fotos no monóculo: um negativo inserido num pequeno tubo plástico colorido, que tinha que ser colocado sob a luz para ser revelado. Ficava tempos olhando nele, desvendando tal profundidade.

Hoje são tantas fotos, impossível revelá-las, precisamos de chips e memórias de computador para nós auxiliar. Minhas fotos mostrarão meus traços aos meus netos. Os museus me divulgarão ao porvir. Selfies ficarão catalogados em bibliotecas virtuais públicas inéditas e arquivos privados obsoletos.

Olhamos e logo esquecemos, então temos as fotos para trazer o frescor das lembranças, universos reais e irreais surgem à tona nas fotos de jornais e de famílias.

Admiro fotógrafos profissionais como o Sebastião Salgado, contadores de histórias com seus cliques ímpares. O fotojornalista africano Kevin Carter, quem tirou a foto de um urubu na espreita de uma criança faminta, não suportou o peso da imagem e se suicídio. Realidade cruel!

Nas casas, fotos de lua-de-mel em portas retratos, os modelos envelhecem, a doçura fica registrada. Já os ex-amantes rasgam amiúdes fotos jamais esquecidas na memória.

Faça a melhor pose, coloque a mais bela roupa, visite os espetaculares lugares, nem assim as fotos refletirão quem és, só a imagem que queres passar. Certamente serão apagadas as fotos que ficaram feias, pra que guardar? Certamente deixarás de ver a paisagem porque precisa registrar. Momentos não voltam, a história fica, a vida vai.

Complexo pegar foto em movimento, uma vez conseguido a imagem fica para sempre paralisada. Tentei capturar o melhor ângulo, perdi o foco, fiquei só compondo a cena. Já deduzi que se foco na câmera perco o olhar vivo que me seduz, o além das vistas.  A imagem interna só é percebida quando fechamos os olhos e ficamos em silêncio, é uma aventura sem flashes.

Fotos não tem cheiro e nem paladar, mas aguçam o melhor e/ou o pior da gente. Fotos não tem voz mas causam burburinho. Foto sem luz é nada, memória sem foto é falha, falhas comprovadas por fotos é prova, certas vidas copiadas das fotos de revistas é falsa.

Li que para os depressivos aumentar naturalmente o nível de serotonina no corpo é bom tomar sol, receber massagens e olhar fotografias para recordar os momentos felizes, pois, temos a tendência a negatividade e esquecimentos. Espero um dia gostar de tirar e sair nas fotos. Por enquanto só vejo surrealismo. A estação não tem luz suficiente para fotos.

Preciso capturar imagens de fé e gratidão, contudo essa fotografia só será autêntica se for realidade vívida, não forçada, não pose para um melhor retrato. Por enquanto, consegui identificar e começar a tratar a depressão que me emoldura numa gaveta esquecida da casa da vida.

Este trabalho está licenciado uma Licença

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