Me deixa quieta que eu quero passar 

Me deixa quieta, é tudo o que queria dizer mas às vezes a voz me falta até pra dizer essa simples frase. Com os anos de casamento já se entende as leis que não estavam escritas nos mandamentos. Preciso de reclusão, vou pra caverna, não sei quando saio de lá. Não sei se saio. Duro pra quem está ao lado porque não sabem como lidar com o depressivo. Não sabem como entramos e nem quando vamos sair de lá.

Detesto te ver chorando comigo em silêncio. Já não consigo disfarçar as minhas lágrimas. Imagem que não queria descender para outra infância. “Segura minha mãozinha”, adoro escutar isso, mas minha mão não levanta. Fazer o jantar, estudar para a prova, enviar o cartão de aniversário, desculpe já não estou mais aqui em casa conhecida, fui pra caverna. Por quê nos cativamos? Cativar, cativeiro. O silêncio vai me responder.

Difícil ficar quieta quando a vida te chama no sorriso e na birra dos filhos. Horrível quando se quer receber amigos em casa mas se está habitando na caverna do me deixa quieto. Muitos já cansaram de me ligar. Eu não tenho respostas. Meus entes queridos me pedem licença para passar meu telefone aos demais. Que bicho virei. Rastros da incompreensão me acompanham. Cancelei o livro de rostos por cansaço e intolerância. Sai do Face e dou a face para bater aqui, preciso falar, pra quem quiser me ouvir. Se não sai a voz, na escrita tenho voz que grita. Todavia minha voz é seca e minhas olheiras profundas, imagem que não querem ver, som que não querem curtir.

Fica do meu lado talvez seja pedir muito, meus músculos estão duros como pedra, duro de carregar. Corpo sem e com vida simultaneamente. Tem dias que quero me libertar, ser avestruz, noutros borboletas. Entretanto sei que sou um leão, ninguém chega perto de mim, quem aparecer eu devoro. Até quando, até quando, até quando…

Preciso me domar eu sei, só lá na caverna consigo, não me pergunte como, é medonho, não sei reponder, saio cheia de marcas. Não bata na minha porta me deixa sozinha, na caverna não têm portas. Entro na contra-mão, pego o que tenho de melhor valor, guardo na casa protegida e vou pra caverna. Não olho pra ninguém, não vejo o que estou fazendo. Ninguém chega na hora certa, aqui não tem relógio. O sono não apareceu, vou ao banheiro, nem fossa tem na caverna. Depois de apagar de exaustidão, quando acordo estou com as mãos nas orelhas. Que desespero. Na caverna sem espelhos estou toda sendo descoberta: de despida, de achada.

Não olho pra luz no fim do túnel, pode ser a morte. Não a temo, viver é minha luta. Ultimamente tenho até falta de ar. Só não solto o ar definivamente porque o paraíso me chama de muitas formas. Nas gentilezas dos meus amados com a força de seus amores. Na grandeza da natureza que tudo transforma, vejo o vento movendo nuvens, ondas e dunas, vejo todos os dias. No avançar da história: hoje temos pontes sobre as montanhas, papel higiênico, eletricidade, músicas, abolição da escravatura, Malalas. Não posso me acovardar, não posso me apequenar. Saio da caverna mais forte do que antes, morrendo de medo de voltar. Me deixa quieta que eu quero passar.

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