A viagem não é para sempre.

Ontem comecei duas viagens, a de férias e a do antidepressivo. Nunca pensei chegar por esses caminhos. Nem na europa, nem na depressão. Quanta coisa para descobrir. “Pé vermelho você foi longe” dizem minhas amigas. Nunca imaginei trilhar esses caminhos.

Já sei que vou enfrentar multidão de gente com suas máquinas fotográficas tentando eternizar o momento. Que vou ver muitos castelos belíssimos de reinados caídos e igrejas cheias de ouro do Brasil. O lado bom é que gosto de museus e de histórias. Mais sorte ainda é poder vivenciar esses bons estímulos externos. Expectativa mesmo estou com as praias, sol que saudade de você seu lindo. Palmas ao céu azul.

Já na outra viagem, a do antidepressivo, digo que tive receios, detesto remédios e  qualquer tipo de dependência. Mas cá estou tendo que desbravar esse mundo, vencer o próprio preconceito. Fui me informar melhor, pois, meu orgulho foi domado pelas vicissitudes da vida. Bom aprendizado confesso, busco respostas intensivamente, dentro e fora de mim. Busco novas paisagens, antigos paladares, descanso sereno.

Achava que esse papo de pílulas era só um paliativo, um disfarce, uma fuga para a dor do corpo e da alma, como o álcool, as orações, o apetite desenfreado entre outros. Em contrapartida, descobri que os antidepressivos repõem no organismo hormônios que o próprio corpo está deixando de produzir como a serotonina, adrenalina, dopamina, o que causa a desrugulagem cerebral. Eu achava que era só calmante pra dormir, quanta ignorância.

Fui informada pelo psquiatra que o antidepressivo poderá levar até quatro semanas para surtir efeito. Que terá que regular a dose conforme as ações no corpo e na mente. Que não é uma pílula mágica, a pomada que alívia todas as dores; que o antidepressivo sem terapia é pouco funcional, um trata o corpo e o outro a mente, e que acima de tudo quem está no comando é o paciente, sua busca e vontade de melhorar. Nos altos graus de depressão, nem essa esperança a pessoa tem, se entrega numa cama ou se mata.

Explicou que a depressão vai e vem, pode ter motivo ou não, pode ser genética, pode ser curada sozinha, o que leva de meses a anos. O antidepressivo e terapia são só trilhas para acelerar o tratamento, não prometem a cura milagrosa, mas dão alívio e suporte para sair do fundo do poço. Disse que outro fator importante são os exercícios físicos, nos ajudam a respirar e dormir melhor. Também liberam tais hormônios em menor dosagem. Daonde vou ter energia para praticá-los? A resposta está na gente mesmo, temos que observar os sinais… Foi bom ver por esse ponto de vista, novas paisagens na minha viagem. Dizem que a depressão é um mal moderno, eu discordo quantos dos nossos ídolos e antepassados foram levados por ela? Lembro do Robin Williams no belo filme Patch Adams. Muitos humoristas são depressivos e usam a arte como sublimação. Hoje olho no espelho e só vejo olheiras, mas nem sempre foi assim, andei com muito sorriso no rosto por aí e coração dilacerado sem saber os motivos.

A diferença é que hoje temos mais meios para lidar com a depressão. Não sei como reagirei com o antidepressivo, não quero ficar cultivando a depressão, vou aprender ter higiene mental. Sei que felicidade constante é utopia, mas sei também que quero ter força para continuar a viagem. Vou usar todos meus recursos disponíveis para isso. Quero ter prazer em brincar com meus filhos, ter coragem em estar no meio da multidão, acheditar na evolução da humanidade, produzir bons frutos nessa Terra.

Tenho a oportunidade de viajar de férias com minha família, que maravilha, estou tendo o privilégio de todas essas informações. Penso em quem não tem esses tipos de acessos, triste, muito triste: umas pessoas não se tratam por falta de conhecimento, passam por diversos médicos e tomam remédios e mais remédios, alimentam a indústria farmacêutica mas não saciam a própria alma, é o eu que está inflamado. Outras pessoas não procuram tratamento por falta de conhecimento e dinheiro, estão pior com o agravante da marginalização, levando o peso da pobreza, racismo, segregação. Como penso em vocês, como me sinto pequena… Já outros tem tanto o conhecimento como condições financeiras mas não querem admitir a doença.

Aqui na viagem para desbravar cada cidade são necessários muitos quilômetros de estrada, muito trabalho e economias reservadas anteriormente, sei que alguns dias o clima não estará bom, mas também sei que pisarei em terras jamais vistas, no roteiro que eu mesma escolhi. E quando ficar perdida ou chegar em caminhos desconhecidos levada pelo GPS, terei que descobrir outras saídas. Simbora tentar aproveitar o trajeto porque a viagem não dura para sempre.

3 comentários

  1. Te desejo uma ótima viagem, com muito sol e paisagens lindas. Com certeza os estímulos externos a ajudarão nessa estrada contra a depressão. Nunca fui contra remédios, em especial porque quando comecei a tomá-los foi no ápice do desespero de uma insônia longa e dura, mas compreendo você. Realmente tem muita gente (e grandes empresas) querendo ganhar dinheiro em cima dos doentes e dos que às vezes não têm nem o que comer. Ainda bem que somos privilegiadas e temos acesso ao conhecimento do que é a depressão e os possíveis tratamentos. Realmente não são milagrosos. Sinto que a minha jornada será longa. Dias ruins e dias péssimos. Rs dias bons também. Os anti depressivos demoram pra fazer efeito mesmo, mas fazem. E se não fizerem troca-se o remédio ou a dosagem, acredito. Tenho anotado os sintomas pra acompanhar o progresso do tratamento. Foi uma dica da minha psicóloga. “Daonde vou ter energia para praticá-los? A resposta está na gente mesmo, temos que observar os sinais…” ainda estou me perguntando isso também. Que bom que nas suas caminhadas turísticas vc já vai estar fazendo exercício, liberando esses hormônios todos que estão em falta dentro da gente. Pra mim foi muito consolador compreender como os anti depressivos funcionam também, pra ajudar a tirar o próprio preconceito que eu tinha, me defender do preconceito que eu poderia sofrer e entender que não era minha culpa o meu cérebro ter passado a funcionar de forma diferente.

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  2. Bem explicado Renata, comecei agora depois de muita luta, só que antes eu não sabia com quem batalhava e agora sei, contra a depressão. Você tem razão as caminhadas e paisagens fazem muito bem. Estava com medo de não conseguir acompanhar minha turma, mas tem sido ótimo. Observei que meus maiores momentos de ansiedade não é quando estou com eles, em família, mas quando estou em público, aglomeração. Bom respirar e sentir tudo isso. Quanto ao antidepressivo, claro que ainda não senti nada, é um tratamento de longo prazo, não um ansiolítico (calmante), duro pra muitos entender isso. Enquanto o resultado do antidepressivo não chega, vou viajando, vou acompanhando estórias como a sua e de outras parcerias que surgiram por aqui. Temos muito a dizer.

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  3. Temos muito a dizer. Se tiver outros blogs que falam sobre depressão pra indicar, aceito sugestões. Também me sinto em aglomerações. É horrível, mas respirar faz bem. E é difícil a questão do antidepressivo porque eu queria um resultado instantâneo, mas não vem. Rs

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